Dormindo com Kafka

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A Senhora M. vivia numa cidade rural. A casa era elegante, apesar de cheirar a botas de cabedal. Tinha a Senhora M. uma rendinha todas as noites para acabar, pois a calma dos dias só se completaria depois de manipular, com engenho, aquelas finas linhas. Todos os serões, a Senhora M. sentia-se uma penélope, sonhando com heróis que a salvassem daquela monotonia. Já o senhor da Senhora M. era um Senhor, enquanto emoldurava os serões sentado ao seu lado, fixando a dança frenética das agulhas, dava-lhe deliberadamente, e a seu jeito, a liberdade de sonhar. A Senhora M. sentia-se poderosa, uma odalisca hipnotizadora, uma verdadeira coreógrafa de naperons. O senhor da Senhora M. adormecia sempre depois dos dois ou três passos de dança da agulha. A Senhora M. não desejava ter poder sobre o homem e sim sobre ela mesma. Por isso fazia renda, só assim conseguiria alterar valores, inventando e reinventando motivos que vestissem e camuflassem o pó das cómodas. E porque não há cadeados que prendam ou que oprimam a liberdade da mente, durante os longos serões de renda, a Senhora M. transformava-se naquilo que ela desejava. Numa das noites a metamorfose correu mal. A Senhora M. desejou muito ser uma mosca que pudesse voar pelo escritório, para ver as contas, pousar pelos livros da biblioteca, sair pela janela e espreitar o caseiro, mas o senhor da Senhora M. ouviu um zumbido tão ensurdecedor que acordou e, com um abanão de mão, acabou com a mosca.

Filipa Figueiredo

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