carrossel dos esquisitos

O rato de sacristia vestiu beca

Neto de Moura não será mais do que o produto de uma trágica história familiar. Neto de Moura é Neto de Moura desde sempre. Crescer sem nome próprio deixa sequelas. Basta olhar para o Neto de Moura.

Neto de Moura não tem nome próprio. Há apenas duas razões para isso acontecer a uma pessoa: é militar ou não aprecia proximidade. Ninguém nasce militar, daí se conclui que a família de Neto de Moura não aprecia proximidades. E Neto de Moura também não. Vê–se-lhe na cara. Neto de Moura tem ar austero, de quem cresceu no mofo das igrejas, decorando mandamentos e tiradas do Velho Testamento, sem nunca ter tido um amigo e, por isso, destreinado em capacidades humanas como a compaixão e a empatia.

Das duas uma: Neto de Moura não teve mãe ou Neto de Moura teve uma mãe que não gostava dele. E vamos lá a ver, podemos ter pena de Neto de Moura por essa razão, mas é para isso que temos psicólogos, psiquiatras, medicação e hospitais psiquiátricos.

Neto de Moura cresceu a ver o pai, diácono convicto nas leis de um deus que não interessará a ninguém de tão vingativo, cruel e desumano que é. Tal pai é bem capaz de chegar a casa depois do vinho consagrado lhe ter passado pelo estreito, ao ponto de fazer ganhar rubor na cara, em especial no nariz, e encher a mãe, que não gostava do filho (já assentamos nisso) de pancada. Ela merecia. Ela pariu um Neto de Moura. E sim, concluímos agora que o pai também não apreciava o Neto de Moura.

O Neto de Moura cresceu sem perceber o que é o amor e sem ter ninguém que lhe explicasse que encher o bucho de vinho e a esposa de pancada (mesmo tendo esta parido uma criatura como o Neto de Moura) não é aceitável.

Ainda que juiz desembargador, Neto de Moura é uma besta. E para provar que também sei da Bíblia (ou que tenho acesso à internet) aqui fica a tirada famosa:

“E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada no próprio acto. Na lei, Moisés mandou que as adúlteras sejam apedrejadas. E Tu que dizes? (…) E como insistissem na pergunta, o Mestre endireitou-se e disse-lhes: Aquele que dentre vós está sem pecado que atire a primeira pedra.”

Mas agora, pensando nisto, imaginem o Neto de Moura a ser arrastado até à Praça da República. Uma série de gente com pedras na mão e Jesus dizia a célebre frase. Naturalmente que um certo calhau da calçada voaria em direcção à cara do rato de sacristia de beca vestido, o Neto de Moura. Jesus, perdendo a paciência gritaria para quem a atirou: “Nunca erraste?!” e a alentejana, sorrindo, havia de lhe responder: “A esta distância, não!”

Ana Ademar