idos de março

Força

Moçambique: cerca de 500 mortos, prevendo-se que duplique (acrescem as mais de 250 vítimas do Zimbabué e do Maláui); um milhão de crianças atingidas; mais de 60 mil desalojados; 10 mil pessoas a precisar de resgate imediato; quase 2 milhões a necessitar de alimentos nos próximos meses; risco sério de epidemias (cólera e malária). A tragédia que se abateu sobre Moçambique ilustra bem a nossa vulnerabilidade à força da Natureza, para a qual o Homem muito tem contribuído. Fenómenos naturais, como os ciclones, sempre houve, a sua intensidade assustadoramente crescente e devastadora é que não. A solidariedade tem sido quase exemplar, manchada apenas pela parca ajuda de alguns Estados, grandes responsáveis pelas alterações climáticas, as dificuldades em chegar a zonas mais isoladas do país, e pelas denúncias de que “os alimentos custam o dobro e há empresas externas a exigir o triplo pelo aluguer de um helicóptero”…

Testemunhos emocionados e emocionantes de que quem tudo perdeu e que assiste agora ao horror da fome e da sensação de abandono. Mas também histórias de esperança e de heróis, como o nascimento de Teresa, a viver com os pais num dos abrigos improvisados, que albergam, no total, cerca de 128 mil pessoas; ou dos “40 magníficos” que, abdicando da família, guardam incessantemente uma herdade onde habitam 26 mil crocodilos, propriedade de um português, de forma a proteger a população e o seu futuro sustento. E, João, que “ocupado a levar uma manada de vacas para locais altos” disse ao português: “patrão não perdi os animais mas por causa de estar lá perdi os meus quatro filhos”.

Coincidentemente, no dia anterior à passagem devastadora do Idai, Greta Thunberg, a adolescente ecologista sueca, foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz, pela sua luta contra a ausência de ação dos Estados, e dos adultos, para o combate às alterações climáticas. Ficarão, certamente, célebres as frases com que iniciou a sua intervenção em Davos (Suiça), em janeiro último, no Fórum Económico Mundial, “a nossa casa está a arder”, e como terminou: “Os adultos estão sempre a dizer ‘devemos aos nossos jovens a possibilidade de lhe darmos esperança´. Mas eu não quero a vossa esperança, eu não quero que vocês tenham esperança. Eu quero que vocês entrem em pânico. Eu quero que vocês sintam o medo que eu sinto todos os dias. E eu quero que vocês ajam como se estivessem numa crise. Quero que ajam como se a casa estivesse a arder. Porque está.” Uma miúda que tem agitado o mundo e influenciado várias greves e manifestações estudantis de alerta para a urgente proteção do planeta.

No mês da mulher, em que continuámos a assistir a tanta violência, não posso deixar de referir Jacinda Ardern, Primeira Ministra da Nova Zelândia que, após o ato terrorista mais mortífero ocorrido no seu país (no dia seguinte ao Idai), com 50 mortos, optou por um discurso de serenidade, empatia e de apelo à união.

Fica a esperança de que a força da palavra, da juventude, da união e da solidariedade façam frente à força da intolerância e do capitalismo desenfreado, e que se vá ainda a tempo de reverter a força da natureza.

Sónia Calvário

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