Maria

Recebi-a num dia de chuva. Era franzina e o olhar fugia do meu.

Bateu à porta e entrou devagar, a medo, medo do desconhecido. Estava ali, perante uma estranha, para contar a sua vida. 

Falou baixo e com os olhos postos no chão, arranhando, nervosamente, um pedaço do tecido desbotado da saia. Falava e alisava a saia, num gesto mecânico de alindar o que lhe parecia feio, como quem tentava compôr as rugas da história que, a contragosto, ali fora contar. 

Uma história de medo.

Contou que teve medo quando ele lhe bateu a primeira vez, estava ela grávida da filha. Não reagiu, no choque de não acreditar, mas pensou que tinha sido só naquele dia, ele vinha cansado, o trabalho correra mal, ela não tinha tratado do jantar porque tinha ido fazer a ecografia e a consulta atrasou.
Contou, enquanto alisava a saia. 

Na segunda, já não sabe bem porque foi, mas sabe que a filha bebé começou a chorar porque a tinha ao colo e o soco que levou a fez bater na parede, com estrondo.
Quis acreditar que tinha sido só mais essa vez.

Depois dessa, todas as outras se misturam num novelo indefinido de dias, horas, anos de um sofrimento indizível, que não sabe verbalizar mas lhe adivinhamos no sobressalto constante do seu corpo frágil, no olhar assustado, um pavor de animal acossado.

Chegou ali para dizer que não aguenta mais. Que não pode aguentar mais. Ontem foi a filha adolescente que levou a estalada que lhe era dirigida, quando enfrentou o pai para defender a mãe.

A minha filha não, quase grita. Um grito arrancado do fundo do peito, reprimido durante anos à conta do medo, da vergonha, da culpa. Por mim aguentei mas a minha filha não!

Pede ajuda sem saber muito bem para quê. Quer apenas que aquilo pare.
Quer de novo o brilho nos olhos, a paz. Quer o sono tranquilo de quem não tem que manter guarda permanente, sem saber o que lá vem. Quer que a filha cresça sem os gritos, as ofensas, as saídas de casa a meio da noite em fuga da pancada, nos dias piores.
Que a filha cresça e namore e um dia case, sem medo.
Que ela seja leve e feliz, que nunca tenha medo, diz agora num discurso quase inflamado, a voz rouca, uterina, de quem é capaz de rasgar o corpo para dar vida a outro ser.
Por quem é capaz de dar a vida.

Recua quando ouve, do discurso de quem a tenta aconselhar, uma única palavra, Casa-Abrigo. Que a agride quase tanto como o punho do marido. Encolhe-se e abana a cabeça, repentinamente determinada.

Que não, que não, como pode ser e a casa e o cão e as cabras, quem lhes tira o leite e põe para pastar? Que não, nem pensar e as oliveiras a dar fruto, quem o irá apanhar?
E os linhos da avó e o serviço dos Domingos e….o vestido do casamento, na arca onde empacota a história duma vida, deixá-la nem pensar. Em que outro lugar a poderia guardar?

Que não, pode lá ser! E a família, a mãe velhinha? E os vizinhos?

Que não, pode ser que não, que ele nunca mais, desta vez é que é, vai melhorar, vai passar, vai passar, vai passar.

Foi manchete dos jornais no dia seguinte. O corpo inerte em horário nobre, na abertura do telejornal, um corpo sem nome, apenas “Mulher morta pelo marido”. Mais uma.

Por baixo do lençol que a cobria, pendia uma ponta da saia, amarrotada, já sem ter mãos que a alisassem.

 *história ficcionada a partir de factos [dramaticamente, desoladoramente] reais

Maria Manuel Coelho