Os 40 são os novos 30

o carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Podcast

Ando aqui mal de um ombro. Diz que são contraturas. No plural. Várias.

Há menos de uma semana fui picada por um bicho não identificado. O braço ficou o triplo do tamanho original e a comichão era suficiente para me fazer ter vontade de arrancar a pele.

Nos últimos tempos tem-me acontecido acordar muito cedo, sem as horas de sono suficientes, e depois não consigo voltar a dormir.

Quando tenho de fazer limpezas grandes, fico com umas dores no fundo das costas que eu acho que é ciática, mas não tenho diagnóstico.

Desconfio que preciso de ir ao oftalmologista, porque já não vejo muito bem, mesmo com os óculos.

A ver se não me esqueço de marcar a consulta no dentista, que há aqui um dente que me anda a dar chatices.

O meu pé direito nunca mais foi o mesmo depois da ruptura de ligamentos e de vez em quando dói-me bastante, especialmente quando começa a haver frio.

Dá-me ideia que me começou a aparecer uma ligeira papada, o chamado segundo queixo, e não gosto muito de ver.

As rugas de expressão estão cada vez mais fundas, especialmente duas: a da testa, vulgarmente chamada de ruga do “wtf?” e as dos cantos da boca. Essas são de rir muito, e ainda que sejam fundas, são herança do avô e eu acho que se é preciso ter rugas, que sejam herdadas e de rir.

Tenho quase 40 anos.

Porra, quase 40! (considero o “quase” bastante importante neste contexto). E no geral têm corrido bem, tirando as chatices que me vão acontecendo e com as quais lido melhor ou pior conforme elas me apanham: mais forte e espadaúda, mais confiante e destemida ou mais fragilizada, hesitante ou duvidosa. Com melhor feitio e em paz com a vida ou com maior desejo e necessidade de destruição e de causar catástrofes.

Mas sim, os 40 estão quase aí (e eu, neste contexto, não sei se já disse, considero o “quase” muito importante) e eu pr’aqui ando com mazelas, cada vez mais crocante, mas ainda extremamente gostosa e muito expectante com o que aí vem.

Caramba! há 30 anos, ter 40 era um cair da tripeça, um esperar pela morte, era o prólogo da terceira idade, a certeza de que em breve existiriam fraldas nos armários da casa de banho.

Não.

Os 40 são os novos 30. Eu estou aqui para as curvas. Ainda que estaladiça. Com dioptrias a cavalgar (possivelmente uma catarata, nunca se sabe!), alergias estranhas a bichos não identificados, pomadas e unguentos para combater a ciática por diagnosticar e as contraturas que vieram para ficar. Tenho de usar mala agora, por causa dos comprimidos para a eventualidade de me começar a doer qualquer coisa, a garrafa de água para tomar os eventuais comprimidos para as eventuais dores ou mal estares, os lenços de papel porque nunca se sabe quando a rinite ataca, o baton do cieiro, que estou cada vez mais sensível ao frio e ao calor, o creme das mãos, porque já se sabe que a pele sofre horrores com as agressões do dia a dia, o espelhinho e a pinça, porque nunca se sabe quando podem aparecer pêlos em sítios inestéticos. Mas no geral, sinto-me forte e capaz de enfrentar o mundo. Desde que venha devagar, que eu tenho quase 40.

Ana Ademar