DIA DE DÉRBI… SEM BATOM!!

ars athletica

Violência no Desporto –  Parte I

Sara Mesquita

Partilho convosco um sentimento que deve ser comum à maioria das mulheres sportinguistas: a revista pessoal no acesso ao estádio.

Ninguém pode negar que o Sporting Clube de Portugal é o clube que tem mais adeptas apaixonadas pelo clube, aquelas que não simpatizam com o clube só porque o pai, o namorado, o tio ou o primo são desse clube. As mulheres sportinguistas são do Sporting por elas próprias, vibram em cada vitória e choram em cada derrota, às vezes mais do que o pai, o namorado, o tio ou o primo. São verdadeiras adeptas. Ainda que o Sporting possa não ser o clube com mais sócias/adeptas femininas (confesso que não analisei os dados), as mulheres sportinguistas são as mais assíduas nas competições do clube. No futebol e em todas as modalidades. Creio que o estádio de Alvalade terá uma percentagem feminina, em dias de jogo, de cerca de 40%.

Talvez por isso existam tantas mulheres a fazer a revista pessoal das mulheres em dia de jogo. Esta é, aliás, uma medida de prevenção da violência no desporto obrigatória por lei (art. 25.º, Lei 39/2009, de 30-07, alterado pela Lei 52/2013, de 25-07):

“1 – O assistente de recinto desportivo pode, na área definida para o controlo de acessos, efetuar revistas pessoais de prevenção e segurança aos espectadores, nos termos da legislação aplicável ao exercício da atividade de segurança privada, com o objetivo de impedir a introdução no recinto desportivo de objetos ou substâncias proibidas, suscetíveis de possibilitar ou gerar atos de violência. (…)
3 – As forças de segurança destacadas para o espetáculo desportivo, sempre que tal se mostre necessário, podem proceder a revistas aos espectadores, por forma a evitar a existência no recinto de objetos ou substâncias proibidos ou suscetíveis de possibilitar atos de violência.”

Tudo bem.

Acho ótimo.

Vejamos o que consta no regulamento do estádio José Alvalade:

“7. Será impedida a entrada no Estádio por parte dos ARD ou da Polícia, de todos os objetos que constem na legislação que estabelece as medidas preventivas e punitivas a adotar em casos de manifestações de violência associadas ao desporto ou a condutas suscetíveis de criar perigo para a vida e integridade física. Para além de outros objetos que a Gestão do Estádio ou as autoridades policiais venham a definir, é proibida, nomeadamente, a entrada dos seguintes objetos: armas de fogo, material explosivo, engenhos pirotécnicos, navalhas, utensílios e ferramentas, seringas, latas e garrafas de bebidas ou outras, guarda-chuvas, capacetes, cinturões, copos de vidro, rádios portáteis, bombas de spray, bolas, hastes rígidas e outros objetos cortantes e/ou de arremesso.”

“Outros objetos cortantes e/ou de arremesso”: pois, acho que é melhor começarmos a ir para o estádio só com a roupa que temos vestida.

Dia 3 de Abril de 2019, 2.ª mão da meia-final da taça de Portugal (Sporting vs Benfica), quarta-feira, 20h45: cheguei às imediações do estádio José Alvalade por volta das 20h15, caminhei até à minha porta de entrada e aguardei a vez de ser revistada (sabem quando não fizeram nada, mas têm medo de ser apanhados por alguma coisa? É assim que me sinto sempre que chego ao momento da revista). Chegado o momento, abro os braços e disponibilizo-me de imediato a abrir a minha mala porque acho muito importante que seja feita uma boa revista, sinto-me segura, mas… calma!
Depois de tirar tudo o que tinha dentro da mala, a segurança perguntou-me se as duas power bank que tinha na mala funcionavam (Não. Uma é para carregar o telemóvel e a outra é para fazer companhia… claro que sim!!! Ou acham que uma mulher gosta só de ter muitas coisas na mala?). Essa passou, ufa!! De seguida disse-me que não poderia entrar no recinto se não deitasse fora o batom que tinha na mala. Questionei, sem perder muito tempo porque queria ouvir o “Mundo sabe que”, a razão de não me deixarem entrar com um batom, mas a justificação foi que o batom poderia ser um objeto de arremesso. Como? Ouvi bem? Um isqueiro arremessado tem o mesmo efeito que um batom arremessado (acreditem: Nunca arremessaria o batom) e qualquer fumador pode entrar no recinto com um isqueiro. Não há critério. Aquele batom já tinha passado pela revista várias vezes (e depois desse dia continuou a passar), nunca houve qualquer constrangimento.

É por isso que vos digo: comecem a ir para o estádio só com a roupa que têm vestida. Nunca se sabe quando poderão considerar um telemóvel, uma carteira, um isqueiro, uma caneta, uns óculos, uma caixa de comprimidos, ou mesmo nós próprios como objetos de arremesso.

Contrariamente, no estádio da Luz, dia 6 de Fevereiro de 2019, à mesma hora, 1.ª mão da meia-final da taça de Portugal, quarta-feira (Benfica vs Sporting), o mesmo registo, talvez a mesma mala, abri-a mas ninguém quis ver, mandaram-me seguir. Fiquei automaticamente em alerta. Não por mim, mas pelos milhares de pessoas que se encontravam no estádio sem terem sido verdadeiramente revistadas.

Na mesma cidade, nas mesmas circunstâncias e ao abrigo da mesma lei, vivi o 8 e o 80. Segurança excessiva, onde se impede a entrada de um batom, sendo mesmo requisito de proibição de entrada no recinto e, por outro lado, a segurança insuficiente num jogo considerado pela PSP como sendo de risco elevado.

Acho essencial as medidas que são tomadas para que seja garantida a segurança nos estádios, de outra forma não assistiria a nenhum jogo, mas tem que haver critério. Tem que haver um padrão e uma definição de “objetos proibidos”. Nós portugueses, temos que deixar de lado os conceitos indeterminados que são o maior aliado daqueles que não se querem comprometer, algo simples como “objetos de arremesso, salvo os que sejam de uso pessoal” já ajudava. Não podemos permitir que a aplicação dos conceitos varie consoante o dia, o tempo ou a pessoa que se está a servir deles.

É essencial garantir a segurança dos adeptos, assim como é essencial que eles se sintam bem na chegada a casa. E, por isso, “nem 8, nem 80”, sff!!

Mulheres com garra também falam de desporto (com batom).