Exortar abril. Todos os dias.

excorgitações

Sofia

Sou uma gaja dada a rituais. Estranhos, umbiguistas, quase onanistas, mas que cultivo, como se fossem flores ou amigos. Um deles, que hoje aqui partilho, é celebrar abril.  Não que seja dada a festas, até porque dez pessoas sempre me pareceu uma multidão, mas, desde que tenho memória de ter memória, faço questão de abandonar o sofá, isolar-me no meio de muita gente, e evocar a coragem dos salgueiros maias que armados de cravos conquistaram o (meu) direito a expressar a (minha) voz. O supremo direito de ter o direito de fazer os meus próprios erros e lutar pelas minhas convicções, amiúde falhadas ou erradas.

Porque sou pouco dada a planos, quando dedinho estas palavras ainda não sei onde vou estar no 25 de abril: mas, sei de ciência certa que vou escutar os foguetes com uma mini na mão (só não prometo ser cristal, porque cada vez é mais raro encontrar, além de que a minha única promessa é nunca prometer nada!). Gosto de comemorar as liberdades. No plural. Porque a democracia não se esgota no voto e na patetice política. As liberdades que a democracia evoca é a liberdade de usar decote, a liberdade de sair sozinha sem que imbecis me tentem palmar, a liberdade de usar minissaias e calças compridas, a liberdade de desejar um homem como os homens desejam uma qualquer mulher, de ser gaja sem deixar de ser menina (a liberdade de poder matar com os olhos os energúmenos que me chamam de senhora), a liberdade de me pintar ou sair de casa sem estar arranjada, a indulgência de me deixarem ser mãe sem ter de abdicar do meu trabalho, o supremo privilégio de fazer as minhas escolhas ou escolher não as fazer. Sim. Eu exorto abril, mas com todas as suas liberdades, porque ouvi em pita e luto para nunca esquecer que de nenhum fruto me vou contentar apenas com a metade e serei sempre e eternamente insaciada