As Palavras são como a Água

e agora eles

Jorge Serafim

Aqui estamos, a medir o momento que nos aproximará ou nos afastará definitivamente um do outro. Narrador e ouvinte, subvertendo os algarismos que nos conduzem mês após mês. Por um breve instante não se farão contas aos passos dados. A sala, o auditório, a escola, o jardim-de-infância, a biblioteca, o teatro, a prisão, o hospital, o lar da terceira idade, a rua, o largo, o jardim, a disposição das cadeiras, a luminosidade, a heterogeneidade da audiência, a afluência do público. No fundo fazemos inevitavelmente uma primeira interpretação de uma sessão de histórias que se quer sempre partilhada com o outro. Que também seja voz do outro. Não há inverso, mas reflexos cristalinos. Tão próximos estamos e ao alcance da menina dos olhos que nos lemos sem artifícios de linguagem. Nu contra o nu. Apenas agasalhados por narrativas que nos aconchegam a alma na tempestade e na bonança. Assim germina a geografia do afecto. O início de um outro eu que se pretende meu. Não uma posse, mas a continuidade.

 

Temos a dúvida instalada desde o instante em que abrimos a porta da rua para sair de casa com o objectivo de chegar ao local agendado e assim entrar noutro espaço, noutro tempo e possivelmente noutra dimensão. Não o sabemos até acontecer. Aliás, nem acreditamos nessa possibilidade. De que despidos de cenários, de luzes, de adereços e de artefactos conseguiremos sair do dia-a-dia para acontecer qualquer coisa dentro de nós. Diferente, maravilhosamente diferente. Já não sabemos inscrever silêncios no quotidiano que nos circunda e muito menos identificar o que nos proporciona a imensidão de uma quietude. Precisamos urgentemente de viver no avesso do espectáculo. Para distinguir o cantar dos pássaros e as vogais dos homens. Perceber que a cadência do tempo se mantém igual, mas a nossa relação com os ponteiros, acelerou-se de tal maneira que os segundos já não respondem aos nossos frémitos, demoram tanto, demasiado tanto a passar. Amornecemos a acutilância dos sentidos. Olhar, tocar, escutar, cheirar e provar coroaram-se sinónimos porque reféns do imediato, do mesmo instantâneo, da impaciência para digerir um pensamento. Como se a principal função passasse a ser a de “indistinguir”.

 

Mas, ficar de corpo calado a ouvir o mais ínfimo remanso é reaprender a arejar a razão. Questionar as certezas e sair do círculo para que o dogma se dilua no mistério proibido, no coração interdito, na dor e no veredicto, no assunto inaudito, e por fim no odor de tudo o que não questionamos. Tenho em mim que falar com os medos é a melhor forma de mondar as ignorâncias invasivas. O bolor é um fungo que não dá descanso. Há que minimizá-lo! E não nos esqueçamos, as palavras são como a água infiltram-se em qualquer buraco. Alastremos então estes micro‑organismos compostos de sons e de sinais gráficos para humanizar e nomear a diversidade do mundo.

 

Pela palavra iremos até onde a escuta nos deixar. Pela palavra esclarecemos a sombra de uma árvore. Clarificamos a escuridão da noite. Podamos as pedras no sapato. Tecemos a luz de um caminho. Era uma vez… E só despidos de ruídos, plenos de silêncio é que faremos a extraordinária viagem descrita na narrativa. Há um itinerário interior inscrito no corpo de cada ouvinte. O contador de histórias é o veículo, o guia que nomeia as coisas que apoquentam, os caminhos sinuosos, os corações mais íngremes, o sentido da morte e o tempo da vida. Como se dentro de nós se cumprisse o ciclo das estações. Somos tudo o que sonhamos, tudo o que amamos e odiamos, tudo o que compomos e destroçamos pelo fio condutor de um magnífico conto. No Outono desprendemos as lágrimas, no inverno acobertamos a mágoa, na primavera florescem os arrepios na pele, no verão “azulece” o céu da boca.

 

Contar histórias é o acto de apagar fronteiras. De separar o que importa do que não. De reencontrar as pessoas em tudo o que as assemelha e diferencia. Está é a força maior da memória e da palavra partilhada sem preconceito, saber quem somos para saber que os outros também são e vice-versa, pois os reflexos são inferiores.

Bem-dito e louvado

Está o meu coração

Partilhado