Malabarismos… com as Palavras

Sónia Calvário

É indiscutível o poder da palavra e da linguagem no animus dos indivíduos. Sabemos disso, mas deixamo-nos ludibriar.

Ontem celebrámos o Dia Internacional do Trabalhador, ou seja, daquele que aplica as suas habilidades, competências e/ou força para alcançar determinado fim, sendo pago por isso. O trabalhador, que tem um vínculo com uma determinada entidade, a empregadora, tem direitos e deveres, consagrados, legal e contratualmente.

A partir da década de 90, do século passado, pela mão de algumas multinacionais, começou a introduzir-se a expressão “colaborador”, com fundamento na humanização do trabalho, no envolvimento dos trabalhadores na vida da empresa… algumas instituições públicas e privadas, nomeadamente do setor social, foram a reboque.

Um colaborador é alguém que ajuda, apoia, como por exemplo o advogado, o contabilista ou até o voluntário, e que terá certamente direitos e obrigações, em última análise ditados pela boa‑fé, essencialmente como garante da relação entre as partes e dos interesses, legítimos, de cada uma delas.

O trabalho é um dos fatores de produção, ou seja, elemento fundamental para o processo produtivo. Quem o executa é parte integrante, deve e tem o direito de conhecer os objetivos que, com o todo, se pretendem alcançar, e obriga-se a aplicar as suas competências, na realização das tarefas de é incumbido. Recebe por isso e tem direitos e deveres.

A substituição da expressão Trabalhador por Colaborador não corresponde a qualquer  mudança de paradigma ou melhoria das condições de trabalho/vida dos trabalhadores. Antes pelo contrário. Se o trabalhador for considerado como essencial, merecedor de dignidade e se, pelo menos, forem aplicadas as normas laborais atingem-se os objetivos invocados para justificar a utilização da “nova nomenclatura”… 

Voltaremos, em breve, a este assunto e a outros malabarismos da linguagem.