DIA DE JOGO… COM OU SEM ÁLCOOL?

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Violência no Desporto –  Parte II

Sara Mesquita

 

Como referi no mês passado (Parte I), quando me dirigia para a porta de entrada do estádio para assistir a um jogo, aguardei cerca de 20 minutos até chegar à revista pessoal.

E já que estamos numa fase em que está a ser revisto o regime jurídico do combate à violência, ao racismo, à xenofobia e à intolerância nos espetáculos desportivos, de forma a possibilitar a realização dos mesmos com segurança, achei pertinente trazer à colação um tema que, entre outros aspetos, diminuiria o tempo de espera da revista pessoal: venda e consumo de bebidas alcoólicas no interior dos recintos desportivos: sim ou não?

A venda e o consumo de bebidas alcoólicas nos recintos desportivos, foi proibida com a entrada em vigor da primeira regulamentação da violência associada ao desporto, em 1980.

Em 2009, foi introduzida na legislação a possibilidade de, em algumas zonas do recinto desportivo, ser permitido o consumo de bebidas alcoólicas.

Em 2019, sendo ano de eleições em que os Governos se esforçam para agradar o eleitorado, parece-me perfeitamente possível que se introduza a possibilidade de venda e consumo de bebidas alcoólicas nos recintos desportivos, em toda a sua área e não apenas em determinadas zonas que, em regra são zonas de acesso interdito aos adeptos de bancada.

Estando certa de que alguém dirá algo do género: “então e vão andar lá todos embriagados?” ou “depois vai andar tudo a atirar garrafas pelo ar”, propus-me a pesar a balança e percebi que nenhuma das preocupações dos mais céticos é grave o suficiente.

Relaxem.

Não estamos num recinto de diversão noturna, pelo que as bebidas alcoólicas permitidas deveriam ser apenas as que apresentem baixo teor alcoólico, como a cerveja e a cidra;

Continuaria a ser proibida a permanência de pessoas nitidamente embriagadas dentro dos recintos desportivos, pelo que essas seriam “convidadas” a sair do recinto pelos agentes de segurança e policiais que garantem o normal funcionamento do espetáculo, conforme está previsto acontecer atualmente;

Considerando que uma garrafa de vidro poderia, efetivamente, ser um objeto perigoso, logicamente estas bebidas seriam sempre servidas em copos de plástico (ups, temos que acabar com o plástico. Mas há solução: copos de papel, daqueles dos refrigerantes, por exemplo).

Enfim, ultrapassados que estão os primeiros problemas relacionados com o tipo de bebidas permitidas e o modo como estas deveriam ser servidas, olhemos agora para as vantagens que a permissão de consumo de bebidas alcoólicas nos recintos desportivos trariam ao espetáculo desportivo:

  • A concentração de adeptos nas imediações do recinto desportivo, nas denominadas “roulottes”, e muitas vezes fora do anel de segurança, passaria a estar concentrada no interior do recinto, logo com maior segurança;
  • A entrada para o recinto era diluída, na medida em que as tais concentrações de adeptos não se dirigiriam para o recinto só à hora do jogo e todos juntos (porque até lá estavam a consumir bebidas alcoólicas), o que garantiria que a revista fosse feita sem pressas e com menos percalços a registar;
  • Os adeptos não iriam consumir tantas bebidas alcoólicas, como quando o fazem no exterior do recinto para ir ver o jogo (conhecem a expressão “o fruto proibido é o mais apetecido”? é isso. Fora do recinto, os adeptos têm tendência a consumir mais porque sabem que lá dentro é proibido e então têm que “abastecer” para as duas horas; com a permissão do consumo de bebidas alcoólicas no recinto desportivo, o consumo ia sendo mais moderado);
  • A receita dos clubes certamente aumentaria, dado que os adeptos consumiriam dentro do recinto desportivo (veja-se o caso do Chelsea FC, que aumentou as suas receitas com a permissão da venda de bebidas alcoólicas);
  • Seriam certamente estabelecidas diferentes, e mais vantajosas para ambas as partes, as condições dos contratos de patrocínio, uma vez que a maioria dos clubes são patrocinados por marcas de cerveja.

Aliás, em países como a Alemanha, Itália, Holanda, Inglaterra e Bélgica já é permitida a venda e consumo de bebidas com baixo teor alcoólico nos recintos desportivos, tendo inclusive a UEFA alterado o regulamento de segurança para as competições europeias nesse sentido, no que respeita aos jogos da Liga dos Campeões e Liga Europa, permitindo o consumo de bebidas alcoólicas no recinto desportivo quando a competição ocorra em países que o permitam.

Durante a liberalização do consumo de bebidas de baixo teor alcoólico nos recintos desportivos nestes países e nestas competições em particular, não há conhecimento de incidentes graves a reportar, pelo que Portugal conta já com a experiência destes países para seguir o seu exemplo!

Mulheres com garra também bebem cerveja (com álcool).