Das expressões, dos amores infinitos** e das piscadelas de olho…

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Podcast

Estou convencida de que mesmo aqueles que, como eu, não são dados a misticismos, têm momentos de dúvida. Momentos em que não havendo uma explicação clara e óbvia para um acontecimento em particular, se adopta a ideia confortável de que num universo tão vasto, haverá com toda a certeza, coisas que a ciência ainda não descobriu, não explicou. Se a ocasião faz o ladrão, também faz o crente.

No caso particular a que me refiro, a explicação racional encontrada é até relativamente simples, mas ainda assim… alguma coisa me faz pensar que “isto nunca se sabe” e pelo sim pelo não… que mal faz a gente acreditar em qualquer coisa? Se nos consola um pedacinho…

Aqui está ela, a explicação racional: as saudades são mais que muitas e porque as sei irremediáveis, não me deixo pensar muito sobre elas, e elas, sem que o possa impedir, impõem-se, fazendo-se ver e sentir (porque quando são tão grandes quanto as minhas, senti‑las, é vê-las).

Vivo num estado de saudade permanente há mais de um ano, e nesse tempo todo há episódios e expressões e manias de que me lembro diariamente. Há dias em que acordo com a sensação clara de que os vi, ao meu avô e à minha avó. E quando acordo, tenho sempre de me lembrar que a tê-los visto, só no sonho do qual não guardo uma única lembrança, a não ser a sensação da sua presença.

[Pausa para assumir que apesar de ser bom para escrever textos, isto das saudades é coisa para não nos deixar o Lenço Enxuto*, mas deixa a cabeça cheia de memórias preciosas que provocam a sensação de urgência em relembrá-las e escrevê-las para que não se percam… um disparate! como se me fosse esquecer…]

Aposto que soaria muito bem dizer que não perco uma oportunidade para falar deles, mas não é verdade. Quando me vêm à cabeça (ou será ao coração?), não digo em voz alta o que digo só para mim, porque quero recordar sozinha aquele episódio em específico, o amor que me tinham, o que lhes tenho a eles, que num e noutro caso é absolutamente infinito**.

Concluo que a saudade é egoísta. E íntima.

Eu, que não sou mística, dou por mim a duvidar, questionar e a procurar consolo na hipótese de existir mais qualquer coisa do que isto de virmos ao mundo, sofrermos e sermos felizes aos poucochinhos para desaparecermos de forma mais ou menos trágica.

Dou por mim a pensar, a questionar, a procurar consolo numa expressão que nunca sequer entendi bem: “chata como a potassa”.

“Cala-te um bocadinho, por amor de deus” ou a sua prima: “por amor de deus, pára quieta!” e “chata como a potassa” foram as expressões mais ouvidas enquanto cresci. E é bom assumi-lo, para que não restem dúvidas: tenho a certeza de que era insuportável (claro, que me passou com a idade!?). Se repararem as duas primeiras, muito semelhantes na forma, entram mais na esfera da súplica do que da imposição. Ora, numa família onde palmadas ou bofetadas não eram opção (e sim, estou a ouvir-vos: isso é que te tinha feito bem! Bah… moam-se!), os adultos esperavam que, apenas com palavras eu entendesse o seu desespero… Oh pobres!

Atenção, não estou aqui a fazer terapia, nem, isto é, de forma alguma, um trauma. Sei perfeitamente que falo muito e se actualmente, já crescida (?) adquiri (algum) auto‑controlo, enquanto criança era muito difícil manter-me parada e calada.

Ora “chata como a potassa” foi provavelmente das expressões que mais ouvi da boca de um dos meus amores maiores. Amor dos únicos, dos irrepetíveis, dos que já só vivem dentro de mim, dos que já não vou poder matar saudades a não ser nas recordações. Expressão sempre dita numa voz já irritada, cansada. Às vezes o cansaço era fingido, a ver se eu me condoía do seu desespero… – não resultava. Quando o cansaço não era fingido, a expressão era seguida de um estalinho de língua que só ela sabia fazer. Um estalinho bem audível e que actuava como ponto final.

Parágrafo.

Um destes dias alguém que conheço bem, com quem converso muito e que por isso sei de cor as expressões que usa e as manias no discurso, telefonou-me. Quando lhe pedi um favor e ele acedeu à primeira, quis certificar-me que não o fazia apenas por gentileza, que era realmente uma coisa que não lhe custava fazer, então insisti algumas vezes em variantes da pergunta: “tens mesmo a certeza que não te importas?”. Perante a minha quinta (no máximo!) insistência disse-me, sorrindo (os sorrisos ouvem-se) “és chata como a potassa” e caramba! Ele, que também é um chato do caraças, nunca tinha usado aquela expressão. E juro, naquele momento, ouvi-o dizer aquilo e em eco ouvi a voz da minha avó, mas depois pensando bem na coisa, estou convencida que afinal foi ele o eco da minha avó, um eco atrasado anos e anos no tempo, mas foi o eco da minha avó e de umas suas expressões favoritas, uma entre as muitas que usava. E naquele momento ouvi, depois de ele o ter dito sorrindo, a voz da minha avó a dizer-me: “chata como a potassa!” e rematou com aquele estalinho de língua que era só dela e ninguém sabe fazer igual. E claro, como sempre, assim que soou o estalinho a conversa ficou encerrada. Eu aceitei a ajuda, a minha avó piscou-me o olho e eu consolei-me. Um bocadinho.

* “Lenço Enxuto” é uma canção lindíssima do Samuel Úria.  Além de ter escrito e composto uma das mais bonitas canções que ouvi nos últimos tempos, ainda soube ter a sabedoria e o bom gosto de convidar o Manel Cruz a cantar com ele – não é para todos…

** Roubado descaradamente ao Paulo Monteiro. “O amor infinito que te tenho” é o título do seu multi‑premiado e maravilhoso livro.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s