As crianças

Alexandra Santos Rosa

A criança e a família são temáticas que me fascinam e sobre as quais investi algum tempo da minha vida a investigar e a aprofundar. Como base numa pesquisa que desenvolvi com pré-adolescentes do concelho de Beja e Vidigueira em 2012, obtive dados reveladores do padrão geral de organização do quotidiano das crianças que considero bastante interessantes e que gostaria de partilhar.

O dia a dia das crianças centra-se em espaços institucionalizados, a casa, a escola e os locais onde decorrem as atividades extraescolares, as designadas “ilhas urbanas” (Zeiher,2003). Este padrão aplica-se com maior incidência às crianças que residem em meio urbano, e com recursos económico-sociais altos ou médios.

Se por um lado as crianças do meio rural e/ou de classes sociais mais baixa dispõem de uma maior flexibilidade de horários, de uma maior liberdade para brincar na rua e de usufruir do prazer da descoberta por período de tempo mais dilatados; por outro, são privadas de integrar atividades que complementam a sua formação pessoal e que poderão funcionar como uma mais-valia a longo prazo. Estas diferenças constituem-se como vantagens ou desvantagens para estas crianças? Tudo depende do ângulo que adotemos para analisar esta questão, no entanto só uma investigação transversal no permitiria saber quais os resultados destas discrepâncias no futuro.

Verificámos que as crianças manifestam conhecimentos e capacidade crítica, reconhecem as limitações do seu status, e encaram as rotinas com pragmatismo. O seu carácter prático permite-lhes que usufruam dos aspetos positivos do seu quotidiano, e que criem e utilizem estratégias para enfrentar situações problemáticas.

Os lugares da infância, ou seja, os espaços aos quais as crianças estão ligadas física e emocionalmente delineiam as geografias do grupo de entrevistados, sendo a casa e a escola os mais significativos para o grande grupo.

A casa é o local onde práticas e representações permitem à criança construir o conceito de família, sendo um espaço fundamental para entendimento do funcionamento familiar e a multiplicidade de práticas na infância. Um dos territórios mais privilegiado pelas crianças no espaço doméstico é o quarto, local de construção identitária de individuação e individualização, e que possui um cariz diversificado e plurifuncional.

As atividades de lazer no espaço doméstico gravitam em torno de duas dimensões principais – brincar e utilização dos média e das novas tecnologias, esta última com maior expressão.

Brincar é um conceito aberto, utilizado para definir uma grande diversidade de atividades e demarca claramente as práticas lúdicas dos mais novos – associadas ao jogo simbólico. As práticas centradas nas novas tecnologias e nos média são associadas às culturas juvenis, das quais consideram fazer parte. É percetível nos discursos um “balanço identitário” que se operacionaliza através de uma duplicidade estatutária…são crianças, mas preferem que os associem aos grupos adolescentes…gostam de brincar, de ver desenhos animados, mas também utilizam sistematicamente as novas tecnologias e os media onde acedem alguns conteúdos generalistas e a outros destinados a públicos jovens…estão numa zona de clivagem entre o ser criança e o ser adolescente.

O acesso e o domínio destas crianças aos novos equipamentos tecnológicos conferem-lhes poder relativamente à maioria dos adultos, pois estão dotadas de maiores competências que os mais velhos. Por outro lado, a utilização destes equipamentos amplia os limites físicos das casas e cria novas geografias virtuais, que permitem uma interação contínua com o grupo de pares…são novas formas de interagir, quando o acesso livre à rua é limitado.

A televisão é a forma mais comum de ocupação do tempo livre, existindo um maior consumo de tempo diário a assistir à programação televisiva, do que semanalmente a brincar. A utilização destes equipamentos e a disputa pelo seu controle é frequentemente motivo de contendas entre os elementos da família (pais e filhos e irmãos). Nestas situações o poder dos adultos sobrepõe-se ao das crianças, e faz-se recurso à hierarquia de idades quando a situação decorre entre irmãos.

Apesar das crianças permanecerem mais tempo em casa do que na rua, existe uma preferência pela utilização deste espaço para fins lúdicos. Esta predileção decorre do facto de existir um menor grau de supervisão dos adultos, e um menor número de restrições do que em casa. A utilização destes espaços é mais comum no Verão e em épocas de interrupção letiva.

A dimensão convivial com os pares é extremamente valorizada, em todas as situações do quotidiano, mas essencialmente na escola. Este espaço é descrito essencialmente através das relações entre pares, é um elemento central para a construção da identidade das crianças e para a definição do seu status.

Aferimos que transversalmente a todos os espaços as práticas e as representações destas crianças estão fortemente marcadas o género. Efetivamente a maioria das atividades que desenvolvem, as preferências televisivas, a forma como utilizam as tecnologias, e a participação no trabalho doméstico têm contornos diferenciais. O modo como interagem com os pares é fortemente marcado pelo trabalho de fronteira, e as representações são maioritariamente baseadas em estereótipos tradicionais de género.

Consideramos que a construção da identidade sexual é central nesta fase do desenvolvimento, pelo que estes resultados poderão indiciar o reforço dos estereótipos e do trabalho de fronteira como delimitativos das fronteiras da masculinidade e da feminilidade e que Isabel Raposo sintetiza de forma inigualável no seu texto livre acerca desta temática…

“Os rapazes e as raparigas”

Na minha opinião eu acho que os rapazes e as raparigas são muito diferentes. As raparigas andam sempre juntas são cuscas, quando se zangam no outro dia são as melhores amigas e que não são tão extrovertidas como os rapazes.

Os rapazes têm montes de amigos, andam sempre com um diferente cada dia, estão sempre fora de casa, preferem brincar do que conversar e os seus futuros sonhos é casar, ter um bom trabalho, que a sogra morra e que a sua mulher faça tudo enquanto ele bebe e vê TV.” 

A análise dos tempos, espaços e práticas das crianças levam-nos a questionar o modo de organização do quotidiano das crianças, demasiado restringido a espaços organizados e supervisionados por adultos. Parece-nos que contrariamente às medidas que têm vindo a ser tomadas, e que fomentam a redução do tempo livre das crianças, deveríamos considerar ampliar estes momentos nos diversos espaços. É certo que para tal seria necessária uma alteração estrutural das políticas de família e de trabalho, no entanto acreditamos que permitindo que as crianças sejam crianças poderemos ter adultos que construam uma sociedade melhor.

Texto baseado na Tese de Doutoramento: Graça, Maria Alexandra Santos Rosa. (2012).Entre Filhos e Pais: Famílias, modelos educativos e construção social do género. Tese de Doutoramento em Sociologia – Família e Vida Quotidiana.  ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Lisboa.

Pode interessar ler “os adultos de amanhã” 

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