“Irrita-me a felicidade de todos estes homens que não sabem que são infelizes. (…) Por isto, contudo, os amo a todos. Meus queridos vegetais”*

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Estou prestes fazer anos e sempre gostei de festejar o dia. Sou pela celebração das pequenas vitórias e com a minha propensão para o acidente e para o azar de forma generalizada, manter-me viva, parecendo que não, é uma vitória.

Compreendo o aniversário como mais uma desculpa para recomeçar. Gosto de o fazer. Riscar e começar do zero, ou quase. É a altura ideal para fazer planos, tentar perceber o que está errado ou menos certo, analisar a forma como estou na vida, nas relações e o peso que alguns dos pecados capitais têm na minha vida, não por uma questão religiosa, mas prática: estou gorda ou magra demais? Durmo muito ou preciso de começar a levantar-me mais cedo? Ando irada com o mundo ou pelo contrário comem-me as papas na cabeça? E de inveja, como estou? olho para as vidas dos outros e procuro conquistar o que vejo de bom ou porque os outros têm qualquer coisa a que eu não consigo aceder, esforço-me para lhes dificultar a existência?

Haverá coisa melhor que ver alguém com a vidinha resolvida, a levá-la de forma (aparentemente) pacífica e tranquila? Não. Porque se, como eu, andam à procura de recomeços para fazer emendas e redirecionar o volante da viatura a ver se chegam ao destino, podem perguntar a esses semideuses que parecem levar a vida de forma tão suave: “então, pá? Como é que fazes isso?” O mais certo é uma gargalhada do outro lado (porque malta feliz, ri-se com facilidade) e a revelação de que não é a felicidade que os faz leves. É que ser infeliz, como disse o Mia Couto “dá uma trabalheira pior que doença”. E eu estou convencida que fingir que se é muito feliz, não deve dar menos…

Vivemos numa ditadura da felicidade que facilmente nos conduz à frustração. Se toda a gente no meu Facebook é feliz e eu não me sinto assim, é porque não mereço.

Se antes era a publicidade a fazer-nos crer que seríamos felizes pelo consumo; hoje, atingimos um estado de auto-suficiência: castigamo-nos e frustramo-nos uns aos outros através das redes sociais.

Se antes, nos intervalos dos programas, “só” tínhamos de lidar com as famílias felizes porque bebiam sumo de laranja pela manhã, casais apaixonadíssimos e felizes porque o carro já vinha com auto-rádio ou consoadas abençoadas, recheadas de sorrisos e amor ao próximo porque o bacalhau era da Noruega; actualmente a malta dedica-se à selfie e ao post com citação como instrumento de tortura: “Eu com o maridão nas bifanas em Vendas Novas. luv u 4 ever”; “20 anos depois e continuo apaixonado por ti. Nunca mudes”.

Não tenho absolutamente nada contra as demonstrações públicas de afecto (tirando as do Marcelo, que o que é demais, também aborrece!), mas quer-me parecer que estamos todos num concurso sem regras muito definidas, cujo único objectivo é convencer o outro de que se é muito feliz, sendo que essa felicidade assenta num único pilar: a relação amorosa.

Se nem o bacalhau da Noruega nos garante felicidade, como é que as bifanas de Vendas Novas o fariam?

Não estamos felizes e os outros não podem perceber que temos esta “deficiência”, como é que fazemos? Momento de pânico! Plim! Solução: uma selfie num sítio bonito com o/a mais-que-tudo-do-momento e a legenda: “sou a pessoa mais sortuda do mundo. Não preciso de mais nada para ser feliz.” E, bolas! toda a gente sabe que é mentira e que provavelmente o divórcio está ao virar da esquina. Pronto… isto já sou eu a meter veneno, mas ninguém é feliz todos os dias, porra! E está tudo bem, não há problema nenhum. Temos direito a estar tristes, temos direito a lamber feridas e a não ser feliz por decreto.

Mas também temos o direito de procurar sê-lo realmente. Mais que um direito, é uma obrigação, é para o bem comum: pessoas resolvidas, felizes (pelo menos às vezes) têm tendência a preocupar-se menos e a não se meter na vida dos outros, têm tendência a viver e a deixar viver e essencialmente a não prejudicar ninguém.

Porque não sou um gustavo santos desta vida e não percebo nada de auto-ajuda, não vos sei dizer como se faz, digo-vos que comigo, é uma questão de recomeçar e emendar a mão. Agarrar num dia de anos qualquer ou numa passagem de ano ou no dia 1 de qualquer mês, até uma segunda feira serve, e reinventar a forma como faço coisas de todos os dias. Procurar encará-las doutra forma. Mais leve. Sem drama (e como é difícil para mim abdicar do drama!!!) Se não funcionar à primeira, é esperar pela próxima segunda feira e recomeçar. Tem resultado. Até vos digo mais: se um dia eu publicar uma selfie onde pareça que estou feliz, acreditem, é porque estou mesmo!

*excerto retirado de: “O Livro do Desassossego” de Bernardo Soares/Fernando Pessoa ou vice-versa

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