“Meu mal é ver que eu vou bem”*

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Esta silly season está cheia de acontecimentos e eu, que estou convencida de que padeço de síndroma do cérebro acelerado (aprendi num podcast), tenho dificuldade em concentrar-me…

DAS BONIFÁCIAS DESTA VIDA 

Tento manter-me informada sobre o que vai acontecendo pelo mundo. Por vezes, há assuntos tão complexos, abrangentes e graves que eu, que faço parte disto – ainda que ocasionalmente, contrariada – consciente da minha insignificância perante a Grande Máquina sinto-me cúmplice, pelo silêncio e inércia, da barbárie que alastra, das tragédias à nossa porta (à nossa costa)… Confrontada com a inexistência de um mecanismo de coping eficaz, tendo em vista a auto-preservação, desligo: fujo dos jornais, não vejo televisão, não ligo o rádio e faço scroll mais rapidamente…

Ainda assim, sei da existência de bolsonaros, trumps, salvinis, abascals, órbans, le pens e outros que tais. Sei que a extrema-direita e movimentos fascistó-nazis estão a ganhar terreno no mundo. E isso aterra-me.

Percebi que a eleição do trump, além de muitas outras consequências , teve o efeito de fazer sair do armário uma “estirpe” (piscadela de olho à Cinha) que, na minha opinião, podia lá ficar ad aeternum. Até nós, aqui no nosso cantinho, descobrimos um ventura desta vida, um minion fascista.

Com a desculpa de que “eu sou contra o politicamente correcto” dão corpo e voz ao ódio. E os média cooperam: nos programas das sopeiras, oferece-se a oportunidade a nazis de se explicarem (como se houvesse explicação para o ódio) e lavarem a cara, publicam-se fotografias de cães raivosos de braço levantado e mãozinha em riste e dá-se tempo de antena a discursos tão populistas quanto perigosos.

E eis senão quando, em plena silly season, aparece Bonifácio! Dra.!

Ainda que ocasionalmente desligue do mundo e das notícias, tenho perfeita consciência da existência de bonifácias, que o discurso do ódio está aí, cada vez mais a descoberto. Mas chocou-me o despudor com que a senhora escreveu aquelas barbaridades.

Se é crime, não sei, mas é ofensivo. Muito. Profundamente. E assumo: sinto-me ofendida e envergonhada. Se a doutora, que estuda a história do mundo, consegue ter aquele discurso e não tem vergonha de o assumir, colocando-se como uma “padeira de Aljubarrota” em defesa da moral e dos bons costumes, eu tenho vergonha por ela.

Se é mais perigoso os que pensam assim e estão calados? Não sei. A mim isto choca-me. Se isto se enquadra na liberdade de expressão? Não. De forma alguma. A liberdade de expressão não pode ser a desculpa para papaguear discursos de ódio.

DA APARENTE NECESSIDADE DE RONALDAR AS COISAS

Acabámos de ganhar o campeonato do mundo de hóquei em patins.

Parece que o ronaldo do hóquei é o Ângelo Girão.

Eu, que não percebo nada de hóquei (com patins ou sem), sei que é um desporto de equipa.

Mas a malta tem mesmo de ter um herói, não é? Uma equipa inteira são muitas caras para idolatrar, é mais fácil focarmo-nos num só.

Parabéns ao Girão que conseguiu passar a entrevista a manter o trabalho de equipa em primeiro plano e despistar as perguntas da jornalista que o colocavam como salvador da pátria e o tentavam levar a dizer qualquer coisa como “sim, sou o maior!”.

Ainda assim, tenho de dizer que vi o jogo e o Girão é realmente um guarda-redes do caraças! Mas, mais ou tão importante quanto isso, revelou-se um colega do caraças!

DE COMO QUASE ME TORNEI GROUPIE

A palavra fã sempre me deu fernicoques. Não gosto. Dá assim uma ideia de histeria gritada, cabelos arrancados e desmaios. Vai daí, tirando uma fase na adolescência, que gosto de pensar que foi curta, nunca fui de ser fã de nada. Tinha o quarto forrado a papel de revista é certo, gostava de comprar a Bravo pelos posters e sonhava com o dia em que o Axl Rose me visse na primeira fila de um concerto e se apaixonasse perdidamente por mim (a pedofilia ainda não era uma cena nessa altura!). Felizmente, a fase passou rápido. E assim tornei-me numa adolescente e depois adulta com paixonetas no mundo artístico, mas devidamente controladas.

Se me é oferecida a hipótese de conhecer uma das pessoas que mais admiro, recuso. O que é eu tenho para dizer ao Jorge Palma que não seja uma parvoíce? “Olá, gosto muito do seu trabalho…” e olhos no chão e falta de saliva na boca e não saber o que fazer às mãos…. nop! E imagina que o gajo que escreve das melhores canções que conheço, é afinal uma besta antipática (sei que não é, porque já me disseram, mas serve de argumento para justificar a minha timidez perante gente que vejo um degrauzito acima do humano)?

Posto isto: Ornatos Violeta. Caramba. Ornatos Violeta.

Tal como em muitas coisas da minha vida, cheguei tarde ao mundo do Ornatos. Já eles tinham acabado ou estavam em vias disso. Vai daí, tenho ouvido os dois únicos álbuns disponíveis em alturas variadas e são banda sonora permanente da minha vida.

Manel. Manel Cruz. É Manel assim, sem u. De quem não quer dificultar ou formalizar a coisa de o chamar. Para mim, dos grandes, dos maiores da música nacional.

A semana passada tornei-me festivaleira por necessidade: contra as minhas expectativas, pude afinal assistir a um concerto de Ornatos Violeta. Tentei refrear as expectativas: e se for uma seca épica? Nada mais errado, um momento incrível, milhares (não faço ideia quantos, mas éramos mesmo muitos) de cabeças e corpos e vozes a entoar cada verso com o entusiasmo de saber que era uma oportunidade única.

Relendo os últimos parágrafos tomo consciência de que, se calhar, afinal, mesmo sem posters nem números da Bravo, sou fã de qualquer coisa, ainda que a palavra me dê fernicoques. E quero lá saber de parecer groupie ou fã ou parva: é efectivamente uma das melhores bandas portuguesas de sempre e o Manel, ainda que sem o u dos novos Manuéis chiques, é um dos nossos nomes maiores. 

* verso de “Tanque” de Ornatos Violeta

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