“A cadela do fascismo está sempre no cio”*

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Estamos no verão e já se sabe que com o calor a coisa tem tendência a não funcionar bem e a loucura atinge limites mais elevados.

Sabe-se que Lisboa está na moda e surpreendo-me com a notícia de que até a malta da extrema direita faz turismo e tendo necessidade de reunir, fá-lo num local de clima aprazível, vistas porreiras e uns belíssimos pastéis.

Há uns dias foi notícia o projecto de criação do “Museu Salazar”. Segundo Leonel Gouveia, presidente da câmara de Santa Comba Dão, terra mãe do ditador e do pseudo-museu, será um “Centro Interpretativo”: “Não [é] um santuário destinado a nacionalistas, nem um museu onde se vai diabolizar o estadista de Santa Comba Dão”. Daqui concluo que o pretendido é uma coisa moderada ou meio amorfa, sem ponto de vista. Coisa difícil (senão impossível) de fazer quando se fala de história.

Para quem não conhece, o Museu do Aljube | Resistência e Liberdade foi criado numa antiga prisão do Estado Novo e é um centro de informação fundamental para quem quiser conhecer e entender melhor aquele período histórico. Abrindo o site do mesmo podemos ler: “Dedicado à história e à memória do combate à ditadura e ao reconhecimento da resistência em prol da liberdade e da democracia.” Falo do Museu do Aljube, não só porque qualquer chamada de atenção para o espaço e para trabalho ali desenvolvido é pouca, mas também para tornar claro que não sou de opinião que devamos esquecer a história, pelo contrário. Devemos conhecê-la. E bem. Um local onde pudéssemos entender melhor o contexto histórico em que o país foi entregue à sinistra figura e as consequências do seu reinado seria extremamente pedagógico. Talvez se evitasse o impacto mediático de determinados populismos (sim, André Ventura, é para si – já chega!). Talvez o encontro de amigos do mário machado não tivesse acontecido. Talvez a TVI não tivesse dado tempo de antena a esse cruzamento pessoa com coisa.

Talvez o facto mais bizarro deste “Centro Interpretativo” seja a recusa do senhor presidente da câmara em esclarecer a direcção científica do projecto ou os seus responsáveis. É francamente suspeito. E assustador. E razão suficiente para desconfiarmos das suas intenções.

Por falar em fascistas, destaco a última tolice do Trump (a última no preciso momento em que escrevo – o homem é rápido a ser tolo e quando uso a palavra “tolo” faço-o consciente de que se continuarmos a tratá-lo apenas como uma anedota e não o verdadeiro fascista com graves problemas cognitivos que é, o caso vai ficar ainda mais mal parado). Pois então sua Excelência levanta a hipótese, no ano da graça de 2019, de comprar a Gronelândia e manda os gabinetes competentes estudar a coisa. E os gabinetes, obedecem.

Isto de comprar terras não é novidade, parte significativa do que é hoje o território dos Estados Unidos provém precisamente de compras e negócios.

Como é sabido, Donald não acredita no aquecimento global. Este ano, cerca de 300 cientistas elaboraram um relatório de 1656 páginas sobre as alterações climáticas e os seus efeitos. Donald disse: “não acredito”. E no ano passado, durante uma vaga de frio nos Estados Unidos, revelando um conhecimento aprofundado no tema, twittou: “O que é que aconteceu ao aquecimento global?” (alguém consegue explicar como é que o homem ainda tem acesso às redes sociais?).

Ainda que não acredite no aquecimento global, como se uma divindade e não de um facto científico se tratasse, Donald, homem de negócios genial que é (not!), já está a tentar lucrar com a coisa. Senão vejamos: a Gronelândia tem cerca de 2,1 milhões de km2 de terra praticamente virgem e que com o degelo deixará à mão de semear riquezas várias, nomeadamente carvão e urânio… Quem é tolinho, quem é?!

Felizmente a Dinamarca mantém o bom senso e para já, a Gronelândia e os seus 56 mil habitantes estão a salvo das garras cor de laranja de Trump.

Retirada a hipótese da Gronelândia e se tem mesmo de comprar qualquer coisinha, tenho uma palavrinha para si, sr. Trump: Santa Comba Dão. Ok, são três palavras, mas quem é que se prende a essas miudezas?

Nada contra as pessoas de Santa Comba Dão no geral, porque as há boas, certamente. Ninguém tem culpa de nascer onde nasce, nem os sítios têm culpa de quem lá nasce, mas caramba! Há coisas do demónio! E se não tem carvão ou urânio, Santa Comba Dão apresenta potencial para berço de fascistas. Trump ia gostar.

Nota: circula nas redes sociais uma petição que pretende impedir a construção do “museu”. Segundo o Expresso foram conseguidas 4401 assinaturas em menos de 48h. Bom sinal.

*Bertold Brecht

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