Educar para a sexualidade… como, quando e para quê

à primeira segunda do mês

Vânia Beliz

Temos à porta mais um ano letivo. Há uma semana o país tremeu às custas das casas de banho da escola. Quem frequentou e quem frequenta a escola sabe bem o desafio que é encontrar espaços limpos e preparados para uma boa higiene, mas a preocupação centrou-se na imaginária possibilidade de, a qualquer momento, as crianças, do nada, poderem invadir o espaço que não costumam usar, só porque sim. Li tanta barbaridade numa semana que imaginei o quão perto da famosa fogueirinha da Inquisição.

Nããão, esta crónica não é sobre casas de banho… e, nããão, não vou de todo, atear mais lenha neste lume que insiste em reacender-se à mínima energia de um moralismo de naftalina. Vejamos:

a) educar para a sexualidade faz parte da educação para a saúde, é obrigatória desde 1999, mas continua a ser muitas vezes ignorada;

b) algumas famílias acham, até, que doutrinamos (só a palavra deixa os meus cabelos em pé) as crianças, e que lhes fazemos lavagens cerebrais;

c) as crianças têm dificuldade em aprender a tabuada mas, garantidamente, em apenas 45 minutos de aula, teriam a sua cabeça voltada do avesso;

d) educar para a sexualidade é ir contra a moral das famílias. A sério?!? Se, em casa, a família diz que gostar de alguém do mesmo sexo é paneleiragem porque haverá alguém que lhes vai dizer o contrário? Nem pensar!!! Educar para a sexualidade é ensinar coisas obscenas às crianças; (…).

Trabalho há muitos anos em educação sexual e continuo a ficar incrédula com o fato de existirem tantos argumentos contra e não se saber exatamente o que se aborda nestas aulas… alguém no seu perfeito juízo achará que educar para a sexualidade é falar exclusivamente de sexo? Será? Mesmo?!? Não!!!

Educar para a sexualidade começa muito cedo, logo a partir do momento em que a família espera bebé e acolhe, começa pela forma como as famílias cuidam da criança, pelo processo como se vinculam… tudo isto, e mais, já é sexualidade… sabiam que muitos problemas relacionais adultos vêm das mais precoces experiências de vinculação?

Educar para a sexualidade é falar de identidade, de corpo, de crescimento, de respeito, de tolerância, de amor, de responsabilidade, de riscos… de tudo muito mais que nos faz sermos da Humanidade… Vivemos numa sociedade altamente erotizada. Não são os educadores sexuais que levam o sexo para a escola… o sexo, malandro, está mesmo em todo o lado: desde naquele senhor que se esfrega no anúncio do detergente às cenas mais ousadas da novela, passando pelas páginas centrais do jornal mais lido do país Queremos continuar a ignorar isto? Achamos mesmo que não é preciso alguém desmistificar tudo o que lhes chega? Ai, se as famílias pudessem saber as perguntas aflitas que me chegam – as situações de grande sofrimento porque passam tantos jovens – certamente que não daríamos mãos a medir para tantas solicitações.

Num país onde avós e mães ainda foram educadas a ter vergonha do sexo, a não falar de prazer (assim anda a sexualidade feminina), onde ainda existe uma gigante desigualdade de género que nos devia envergonhar com tantas vítimas, educar para a sexualidade é mesmo uma prioridade.

Não podemos continuar a fazer de conta que hoje sabem tudo… que não é preciso trazer estes assuntos para a escola.

A sexualidade é um conceito muito vasto e, se ao pensar nisto só imagina vulvas e pénis saltitantes, tem mesmo de conhecer mais sobre este universo… A sexualidade responsável é promotora de saúde, de bem-estar e de felicidade, e é isso que se pretende!

Temos todo o direito à nossa intimidade, e a forma como a vivemos, se não for uma prática de crime, não interessa a mais ninguém além de àquelas pessoas que envolvemos nela.

Tanta coisa para partilhar nas nossas redes sociais e insistimos em descontar sempre no mesmo bode expiatório.

Eu, aqui continuarei a ler os vossos filhos e as vossas filhas e a insistir na importância deste trabalho que já é uma missão que acho da maior importância, pois são eles e elas que me dizem isso sempre que se despedem e confidenciam que foi um privilégio falar sem julgamento sobre tantos assuntos. Sou uma privilegiada! Seria difícil de arder.

Bom regresso às aulas.

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