a senhora que se segue: Maria Conceição Lopes

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Maria da Conceição Lopes (14/02/1961), Arqueóloga e Docente universitária, nasceu em Piódão, na Beira Interior, e desenvolveu a maior parte da  sua investigação no Alentejo, que adoptou como sua região. Doutorada, com louvor e distinção, defendeu a dissertação “A cidade Romana de Beja. Percursos e debates acerca de Pax Iulia”. E, desde 2010, coordena o projeto Arqueologia das Cidades de Beja — onde a cidade se encontra com a sua construção, no qual privilegia a resposta aos desafios de reinvenção das cidades históricas, convocando a comunidade à participação na leitura dos arquivos da terra e à divulgação e usufruto  do seu conteúdo.

Com um extenso currículo, incluindo a participação, como perita, em organismos internacionais, como a UNESCO, publicou vários livros e artigos tendo, desde cedo, aderido às novas tecnologias e defendido, em 1992, de forma pioneira, o de uso de informática aplicada às cerâmicas arqueológicas.

Maria Conceição Lopes é a Senhora que se segue no Expoente M.

logoM Tem a vida que idealizava?

Tenho a vida que a vida me vai deixando escolher. Porque tenho essa possibilidade, a de fazer escolhas, poderei dizer que há um ideal de vida que se cumpre. Mas a insatisfação, característica que molda uma boa parte do meu carácter, não me deixa ficar quieta, está sempre a desafiar-me para novas escolhas e para ideais que estão sempre lá mais adiante. Infelizmente, há escolhas que não dependem de mim; aquelas que têm que ver com os coletivos e com o bem-estar da sociedade. Não há ideais de vida cumpridos enquanto houver exclusão social. Assim, o ideal de vida ainda faz parte dos combates e desafios que a insatisfação me determina.

logoM A intervenção/participação na sociedade deve ser uma preocupação de todos?

Nem compreendo a vida de outro modo. Cada um à sua medida, e em razão das suas circunstâncias, deve promover-se como elemento militante da garantia dos direitos de cidadania de todos diferentes todos iguais, assegurando as diferenças vividas e vigiando o cumprimento dos direitos de igualdade.

logoM No seu caso como a pratica?

De vários modos. Não tenho medo de, em circunstância alguma, denunciar atos ou tentativas de limitação dos direitos de cidadania de coletivos ou de indivíduos. Participo no trabalho de instituições que, por via da cultura e das artes  capacitam jovens e crianças para a vida coletiva, para a inclusão social.

Sou professora e insisto na promoção da cultura cidadã.

logoM Como vê a conciliação, atualmente, da vida profissional e familiar/social?

Conciliação difícil. O mundo mudou e o trabalho tomou conta das vidas, 24 horas por dia, sem que haja alteração dos modos e dos direitos de quem trabalha.

O trabalho é hoje um fardo, uma atividade quase desprezível; pode dizer-se que a máxima “o tempo é dinheiro” se alterou para “o teu tempo é o meu dinheiro”. A profissão inunda o tempo e o tempo para a vida social e familiar tem que inventar-se a todo o momento.

logoM Na sua vida existe equilíbrio entre a vida profissional e familiar/social?

Eu tenho sorte, porque consigo gerir parte do meu tempo. Mas, ainda assim, o equilíbrio exige o domínio do percurso pelo arame e, às vezes, resvala-se para o chão.

logoMJá sentiu que a sua afirmação profissional e/ou pessoal foi dificultada ou condicionada por ser mulher?

Sim. Mas muito mais por ser livre, frontal e combativa do que por ser mulher. Já fui preterida em concursos por ser mulher, mas, sobretudo, por não deixar domesticar a minha consciência. Mas, o pior, é quando as mulheres são as mais violentas na condenação à liberdade.

logoM As mulheres partilham pouco, guardam muito para si?

Sim acho que sim. Mas, também não acho que os homens sejam melhores a partilhar. Acho é que as mulheres se organizem pior.

logoMO que é preciso para que as mulheres possam ver garantido o seu direito à igualdade?

Que se revoltem; que se revoltem a sério. Que se organizem, se comovam e se levantem; outra e outra vez, tantas quantas forem necessárias. Que façam lobby e tornem público o seu trabalho, que se convoquem e se reúnam. Leis novas, novos legisladores. Movimentos internacionais.

logoM Como podem as mulheres contribuir para a concretização dessa Igualdade?

Afirmarem-se como mulheres com todas as suas competências e capacidades, incluindo a de serem mães.

logoMQual é o seu maior sonho?

Acho que encontro no poema “Retrato do artista quando coisa” de Manuel de Barros, a resposta para esta questão.

“A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.”

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