“E contudo, elas movem-se!”

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Pensando alto

Sónia Calvário

A frequência das mulheres no ensino superior tem vindo sempre a crescer, ultrapassando o número de homens a partir de 1986 (M=53.724/H=52.492), após quase equiparação no ano anterior. Em 2018 estavam matriculadas 200.518 mulheres e 172.235 homens, diferença que se tem vindo a acentuar.

Verifica-se também que elas têm vindo, progressivamente, a entrar em todas as áreas de ensino. Equiparam-se em termos de número presente no mercado de trabalho, porém, são as mais atingidas pela precariedade e pelo desemprego.

Salienta-se ainda o facto de, como sabemos, o princípio de “salário igual para trabalho de valor equivalente” estar longe da realidade: as mulheres ganham consideravelmente menos do que os homens (cerca de 16%, próximo da média da UE, ocupando Portugal o 24.º lugar, em 28 países) e o gap salarial entre mulheres e homens é superior nos níveis de qualificação mais elevados.

Desde o dia 10 de setembro, e até 29 de outubro, a Universidade do Porto assinala “o contributo das mulheres na área das Ciências, destacando o seu pioneirismo e sublinhando os obstáculos que elas tiveram de ultrapassar para serem admitidas e (re)conhecidas no contexto académico e profissional”. “Cento e trinta anos depois, parecerá consensual a importância que as mulheres desempenham na universidade e na sociedade em geral.  E, no entanto, em muitos casos, o seu percurso foi lento e penoso, e de muitas delas, pouco sabemos. Quem são estas mulheres? Quais são as suas histórias? Que obstáculos tiveram de enfrentar?”

E contudo, elas movem-se! Mulheres e ciência homenageia o contributo de 12 mulheres, desde o final do séc. XIX até à atualidade, em diferentes áreas profissionais. Conta, e também através de um conjunto de 12 poemas inéditos, de várias poetisas, “a sua história e do gesto de rebeldia que foi o de desafiarem e ultrapassa­rem os limites culturalmente associados ao seu sexo”.

SELO-CESINA-BERMUDESADestacamos Cesina Bermudes, a primeira mulher a doutorar-se em Medicina, em Portugal. Nasceu a 20/05/1908 em Lisboa, e faleceu a 09/12/200; era filha de um prestigiado escritor teatral e ensaísta, Félix Bermudes, e de Cândida, doméstica com elevada instrução e cultura.

No Liceu era a única rapariga da turma e licenciou-se, em 1933, em Medicina, seu desejo desde pequena, por influência de um tio, João Semana, imortalizado em “As Pupilas do Senhor Reitor”, por Júlio Dinis. Doutorou-se em 1947, na especialidade de Obstetrícia, com 19 valores.

Ainda na juventude distinguiu-se como patinadora, ciclista e ginasta, numa época em que as mulheres não praticavam desporto, tendo ganho a 1.ª Volta a Lisboa em bicicleta, em 1923, organizada pelo Jornal O Sport de Lisboa e Benfica.

O regime de Salazar condicionou o exercício da sua profissão e impediu-a de lecionar na Faculdade de Medicina. A sua determinação não ficou abalada, pois desde cedo que começou a ter consciência política, integrando movimentos de resistência, nomeadamente de mulheres. Foi presa pela PIDE, em 1949.

Na sua vida, como profissional e enquanto cidadão, Cesina Bermudes milita a favor da qualidade de vida das mulheres e, na clandestinidade, apoiou muitas, assistindo-as na gravidez e fazendo os partos.

Em breve destacaremos outra mulher fantástica.

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