Um brinquinho

à primeira segunda do mês

Cristina Taquelim

Nunca se saberá dizer com exactidão, como é que aquela ideia lhe acudiu à cabeça. Mas sabe-se que tudo começou no dia em que Umbelina recebeu de presente de aniversário, um aspirador. Um aspirador excepcional, para uma mulher excepcional! Até aspira a alma! – dissera Alcibes, carinhoso, sublinhando as funções combinadas de aromatizador, desentupidor de canos e massajador corporal

– Será? – pensava Umbelina para os seus botões, enquanto sorria, perdida na distância que ia entre aquela prova de amor em suaves prestações e o negligé preto de renda pago a pronto. Agradeceu o presente, mostrou-se vagamente interessada, mas por dentro praguejava contra o aspirador: – Havias de te avariar cabrão!

A princípio Umbelina implicava com o electródoméstico. Parecia preferir a eficácia e vigor da vassoura e, por isso, era moderada no seu uso. Com o tempo arrependeu-se da impureza dos seus pensamentos. A casa veio a revelar-se imensa e o aspirador ganhou o seu merecido lugar.

Nos dias de limpeza geral, Umbelina virava colchões, mudava lençóis, arrumava roupas, gavetas e brinquedos, lavava, engomava, organizava o frigorífico, a despensa, arrumava livros e papéis e depois aspirava do rés-do-chão ao primeiro andar. Salas, quartos, corredores, tapetes e cortinados eram passados a pente fino por Umbelina e a sua máquina excepcional. O aspirador, conhecedor dos cantos da casa, libertava Umbelina para alinhar na cabeça o tempo e as horas.

Um dia, sentindo que o depósito já se enchia, Umbelina resolveu desmontar a máquina e limpar peça por peça. No filtro jaziam os restos mortais de três horas de árdua aspiração. Já ia arrumar o invento, quando se lembrou da frase de Alcibes:

– Até aspira a alma! – e foi aí que Umbelina teve aquela ideia . Levou o tubo à boca e “aspirou-se” na maior potência que a máquina permitia.

Aos primeiros solavancos assustou-se. Depois foi a surpresa de ver sair pelo tubo as marcas de 8 anos de fumadora compulsiva, a úlcera gástrica que o senhor doutor afirmara ser do stress e todas as adiposidades acumuladas desde a última gravidez. Gostou do que viu. Ajeitou o bocal e deu uma aspiradela nas vontades adiadas, nas teias do coração. Entusiasmou-se. Começava e sentir-se simplesmente limpa, rejuvenescida. O vendedor tinha razão… e continuou! Aspirou as memórias esclerosadas pelo tempo, as mais violentas , mas, atrás delas foram também sugadas as mais divertidas e doces. Aspirou as ideias banais que tinha na cabeça e, sem querer, também aquelas que sempre fizeram dela uma mulher diferente e realmente especial. Aspirou os medos e as solidões. Aspirou as esperanças e foi aí, ao aspirar as esperanças, que a máquina… rebentou!

Quando Alcibes regressou a casa deu com o engenho jogado por aqui e por acolá, aos pedaços, deitando um cheiro estranho . Ao seu lado Umbelina, jazia desacordada, limpa por dentro e por fora, como nunca! Um brinquinho.

– Leva um homem tantos anos a pagar um aspirador, para isto! A sorte é ainda estar na garantia – dizia Alcibes lamentando o infortúnio.

Umbelina, essa, nunca mais foi a mesma.

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