“Heroes”

O amor à sexta-feira!

Nádia Mira

São infindáveis as faces do amor e infinito o poder que têm as suas inúmeras formas de manifestação.

Lançada como single em 23 de setembro de 1977, Bowie escreveu “Heroes” quando viveu por três anos na Berlim dividida do pós-guerra. Com a colaboração de Brian Eno na letra e com produção de Tony Visconti, é um dos temas mais célebres do cantor.

Embora os nomes tenham sido escondidos para preservar o sigilo, sabe-se que a inspiração chegou quando Bowie viu Tony Visconti e Antonia Maass, uma cantora que atuava com a banda, beijarem-se junto ao Muro de Berlim. Era um romance proibido, porque ele era casado, mas serviu de inspiração para o compositor.

“Consigo lembrar-me/De pé junto ao muro/As armas a dispararem sobre as nossas cabeças/E nós beijámo-nos/Como se nada pudesse cair” (“I can remember/Standing by the wall/And the guns shot above our heads/And we kissed, as though nothing could fall”).

Apesar de “Heroes” ser hoje lembrada como um hino de otimismo e desafio, a sua letra espelha o desconsolo e o desespero de uma cidade dividida. Amigos e familiares no oriente mantidos à parte de seus entes queridos no ocidente por violência e terror.

Anos mais tarde, na noite de 7 de junho de 1987, em Berlim ocidental, David Bowie fez uma atuação que se tornaria lendária. O camaleão do rock subiu ao palco, que tinha como fundo o majestoso parlamento alemão – Reichstag – para fazer história.

Antes de tocar “Heroes” naquela noite, Bowie dirigiu-se ao povo de Berlim oriental, que o ouvia atrás do muro sem o poder ver, dizendo “Cumprimentos a todos os nossos amigos que estão do outro lado do muro”. Apesar dos soldados não hesitarem em usar a força para tentar afastá-los, os jovens de Berlim oriental não se deixaram intimidar e, segundo relatos, centenas aplaudiram a música aos gritos de “O muro tem de cair!”.

“Foi uma das performances mais emocionantes que já fiz”, disse Bowie em 2003. “Caíam-me as lágrimas. Havia milhares do outro lado que haviam chegado perto do muro. Foi como um concerto duplo, onde o muro era a divisão. E podíamos ouvi-los aplaudindo e cantando do outro lado. Ainda hoje me emociono! Nunca fiz nada assim na minha vida, e acho que nunca mais o farei. Foi tão comovente.”

Soube-se, algum tempo mais tarde, que existiam equipamentos virados estrategicamente para o lado oriental e também que no dia anterior Mr. Bowie se havia encontrado e articulado o “movimento” com jovens alemães orientais.

Após a morte de Bowie, em janeiro de 2016, o governo alemão agradeceu ao músico por “ajudar a derrubar o muro” afirmando que ele está “entre os Heróis”.

Seria um exagero dizer que a performance de Bowie foi o início do fim do muro, mas certamente teve um papel importante no crescendo de contestação que surgiu nos dois anos seguintes.

Completam-se amanhã 30 anos do início da queda do Muro de Berlim. Na noite de 9 de Novembro de 1989, depois de 28 anos de existência, começava a cair um dos símbolos da chamada “cortina de ferro” que, durante anos, dividiu a europa.

Hoje, continuamos a erguer muros, entre nós e dentro de nós, invisíveis, mas tão ou mais perigosos. “Heroes” relembra-nos o poder transformador do amor e que, querendo, todos podemos ser heróis, ainda que por um só dia! É sexta-feira, não tenhamos medo de vestir a capa e desembainhar, sempre que necessário, a espada do amor…

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