a senhora que se segue: Regina Marques

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Regina Marques é licenciada em Psicologia (ULB-Bruxelas), Mestre e Doutora em Ciências da Comunicação (FCSH-UNL). Professora aposentada da ESE do Instituto Politécnico de Setúbal, cidade onde vive, é dirigente do MDM-Movimento Democrático de Mulheres, que considera que a luta pela igualdade das mulheres se prende com a igualdade na vida, advindo as suas necessidades específicas da sua condição de mulheres, como, por exemplo, a maternidade, que não pode ser vista apenas como uma questão da mulher, mas sim da sociedade.

Regina Marques diz que “as mulheres deram uma lição aos portugueses, foram capazes de entrar nas escolas, de mostrar grande competência e grande capacidade criativa, e o país desperdiça este potencial”. Ganham menos, são atingidas, em primeiro, pelo desemprego e pelo atraso nos salários; têm dificuldade em aceder a cargos de chefia, nomeadamente na Função Pública. “A luta por uma sociedade diferente exige que as pessoas estejam conscientes do lugar que ocupam. Só lutam se forem capazes de perceber isso”, que todos são pela igualdade “mas não se reivindicam políticas, formas de estar. Acham que tudo está no campo do homem e da mulher, e não no campo mais aberto das condições de vida: é o trabalho, são as condições laborais e são as condições familiares que se repercutem”. E “o problema da violência doméstica e do assédio, que não é uma questão nova” existe “quando há degradação”.

No mês em que se assinala o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres (dia 25), Regina Marques é a Senhora que se segue no Expoente M.

logoMTem a vida que idealizava?

Tenho e tive uma vida cheia de experiências muito interessantes que fizeram de mim uma mulher com valores democráticos e prenhe de os ver aplicados na vida, na minha e na de quem me rodeava. O ideal e a utopia foram e são os motores da sua concretização.

logoMA intervenção/participação na sociedade deve ser uma preocupação de todos?

Não apenas uma preocupação, mas motivo de realização pessoal. Nada se transforma sem a participação das diferentes sensibilidades e todos e todas com as suas propostas e projetos podem construir uma sociedade onde todos cabem. Mas é bom ter a noção de que o (s) poder (es) não são iguais e que justamente as desigualdades existem também no terreno da participação.

logoMComo vê a conciliação, atualmente, da vida profissional e familiar?

A conciliação é uma tarefa imprescindível para quem sonha trabalhar, ter vida pessoal e ter vida familiar. Trata-se mesmo de um direito do individuo e da mulher em particular. Não pode ser prejudicada, discriminada ou dispensada porque é mãe, tem obrigações com os seus familiares. No trabalho tem de lhe ser reconhecido esse direito.. Portanto Conciliar, não é tarefa apenas individual mas todos têm de cumprir os direitos das mulheres, que são trabalhadoras, mães, e têm o direito a ter uma vida politica e social ativa.

Estes direitos têm vindo a ser violados e por razões várias a conciliação é uma quimera. As mulheres não querem perder o emprego, têm menos filhos, não têm onde, nem com quem, os deixar, participam menos nas várias manifestações culturais e sociais. Importaria cumprir e fazer cumprir os direitos constitucionais. É uma tarefa do Estado democrático.

logoMNa sua vida existe equilíbrio entre a vida profissional, familiar/social?

Existiu embora com esforço e existe ainda dado o meu estatuto profissional e económico e porque estive sempre rodeada de familiares que sempre ajudaram a resolver alguns problemas. Quando olho à minha volta o meu caso não é o modelo e a situação social tem vindo a piorar face aos constrangimentos laborais e porque as famílias atuais têm condições de maior isolamento e dificuldades de interajuda.

logoMJá sentiu que a sua afirmação profissional e/ou pessoal foi dificultada ou condicionada por ser mulher?

Senti outras condicionantes, nomeadamente políticas. Parece inacreditável numa sociedade que fez o 25 de Abril.

logoME como dirigente associativa, sente, ou já sentiu, dificuldade na sua afirmação e/ou na compatibilização com a vida profissional e familiar?

Claro que existem dificuldades que só se vencem com força de vontade e determinação e de não abdicar de nenhuma das vertentes essenciais para a sua vida. Isto integra-se naquilo que posso designar como filosofia de vida voltada para si e para os outros, determinados que somos por circunstâncias de natureza ecológica e politica.

logoMAs mulheres partilham pouco, guardam muito para si?

As mulheres são muitas vezes contaminadas pelo meio onde vivem e trabalham. As condições económicas obrigam-nas muitas vezes a pensar sobremaneira em como fazer face às questões da família, da sua subsistência, da sua qualidade mínima de vida. São também muito influenciadas por uma cultura – que também varia e tem variado em função da situação geral do país e do mundo – que as leva a ter receio de muita partilha e de muitas “confissões”, mas muitas mulheres tem riso aberto, são solidarias, têm grupos e associações onde exercem direitos e suscitam debates interessantes sobre a vida e os desafios a que a história local e atual as sujeita. Muitas mulheres são vozes ativas, não apenas individualmente mas coletivamente, contra o isolamento e os silêncios, a que as votaram e teimam em votar apesar da retórica “mainstreaming” e saem dessa fabulosa caixa de pandora secular.

logoMO que é preciso para que as mulheres possam ver garantido o seu direito à igualdade?

É preciso que todos os direitos – ao trabalho, à habitação, à saúde, à maternidade, habitação, ao descanso e ao lazer, à independência económica, sejam respeitados e cumpridos e que a mulher tenha o reconhecimento social e jurídico previsto na Constituição de Abril, que permanece como o documento mais avançado para garantir às mulheres uma vida digna, uma vida que lhes permita ser e estar lá onde devem estar de pleno direito.

logoMComo podem as mulheres contribuir para a concretização dessa Igualdade?

As mulheres são as primeiras interessadas nessa luta que tem de ser permanente enquanto os poderes que nos governam teimaram em passar ao lado das questões fundamentais que garantem a igualdade. Não basta para as mulheres falar de igualdade salarial com os homens. Importa também que as mulheres saiam desse tecto (baixíssimo) de salário de 600 euros mensais ou menos, para poderem ter escolhas na vida que vão ter. São elas as que lutam por horários regulares de trabalho, são elas que lutam por hospitais com pediatria e maternidades, etc. Sim, é nelas e nesta luta que está o futuro da igualdade.

logoMQual é o seu maior sonho?

Sonho e esperança, porque a vida mostra que as revoluções são obra dos povos e que as mulheres não vão deixar por mãos alheias a concretização do seu futuro, fazendo-se respeitar e fazendo respeitar os seus direitos. As mulheres estão a dizer ao mundo que a sua dignidade não passa por mais armamento, por mais guerras, por mais humilhações. A felicidade como utopia da humanidade sim, é possível!

Movimento Democrático de Mulheres – MDM

O MDM é uma associação de mulheres, que se assume como movimento de opinião e de intervenção que valoriza o legado histórico dos movimentos de mulheres que lutaram contra a opressão e as desigualdades entre mulheres e homens, defenderam e defendem os direitos das mulheres nas suas vertentes políticas, sociais, económicas e culturais e de direitos humanos.

Trata-se de uma organização de âmbito nacional, sem fins lucrativos, independente do Estado, de partidos políticos e de religiões, cujo objetivo central é a luta pela emancipação das mulheres, pela paz e pela dignidade humana, indissociável da luta pela construção de uma sociedade de igualdade, democracia, justiça social e desenvolvimento.

O MDM surgiu em 1968, tempo em que se entendia que eram subalternizadas no acesso ao trabalho mas também na própria família: a superioridade do marido relativamente à mulher estava legalmente consagrada.

O desejo das Mulheres em quererem participar na vida política fez surgir o esboço do MDM, com preocupações bem definidas: a educação (quase 50% eram analfabetas), e as questões do trabalho (a entrada das mulheres no mercado de trabalho deveu-se essencialmente à necessidade de suprimir a saída dos homens para a Guerra Colonial e emigração). Houve reuniões em Lisboa, Coimbra e Porto, e que continuaram até 1973. Nesse ano, com muito cuidado por causa da PIDE, realizou-se o primeiro encontro do MDM. O trabalho era clandestino e algumas mulheres foram presas.

Com o 25 de Abril, o MDM iniciou, de imediato, um trabalho de alfabetização em zonas mais afastadas dos grandes centros, estimulou a inclusão de mulheres nas listas eleitorais e lutou, junto da Assembleia Constituinte, através da entrega de uma lista de reivindicações, pela consagração constitucional da igualdade entre homens e mulheres, trabalho igual e salário igual. Considerando que os problemas das mulheres precisavam de resolução global, o MDM pugnou, desde o início, pela legalização do aborto, a necessidade de creches e infantários, bem como da assistência médica, para combater a mortalidade materna e infantil, e quis contribuir para a emancipação das mulheres, para a entrada no mercado de trabalho e para a segurança das crianças. Foi um grupo de mulheres do MDM que criou o primeiro lar da terceira idade, em Setúbal, para fazer face à necessidade de cuidados de pessoas que tinham a seu cargo e, assim, poderem trabalhar.

Considerando-se como “um movimento com a força da vida” pretende:

– Unir as mulheres na defesa dos seus direitos e interesses como cidadãs, trabalhadoras e mães;

– Pugnar pela igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, denunciando e lutando contra todas as formas de discriminação política, social e económica por razões de sexo, deficiência, etnia, de religião ou crença, e orientação sexual;

– Lutar pelo direito ao trabalho, contra a discriminação salarial, pela criação de condições efetivas que permitam a realização de uma vida de qualidade;

– Denunciar e lutar contra todas as formas de violência que atingem as mulheres e ferem a sua dignidade;

– Estabelecer relações de amizade, solidariedade e cooperação com organizações femininas e feministas que, em todo o mundo, lutam pela defesa dos direitos das mulheres e pelo reconhecimento de facto da sua dignidade, bem como por um futuro de paz, justiça e felicidade para a humanidade.

– Defender os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, pugnando também pelo reconhecimento, na prática, da função social da maternidade/paternidade.

saber mais: MDM, Projetos MDM

*Algumas informações foram retiradas e adaptadas de uma entrevista feita a Regina Marques, por ocasião do 50.º aniversário do MDM.

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