“One day I will find the right words, and they will be simple.” *

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Ana Ademar||Expoente M Rádio

Andamos para aqui todos a querer fazer tudo ao mesmo tempo, em busca de qualquer coisa que provavelmente não sabemos bem o que é, com medo de perder não sabemos bem o quê. O que efectivamente sabemos ou mais concretamente, sentimos, é que precisamos de estar permanentemente a correr. Eu, que me canso com facilidade, tenho andado em busca da saída. Sou moça para apreciar um jogging ocasional, mas corridas de 100 metros por mais de 8 horas por dia, não obrigada!

Acredito que descobri a estratégia para sair da pista de tartã em que a minha vida se transformou e apesar de relativamente simples, em termos de conceito, é coisa complicada de atingir: simplificar.

Toda a gente sabe que as coisas simples são as mais difíceis, porque independentemente do que se trate, se não há artifícios, têm de valer por si só.

Escrever um texto simples, sem frases compridas, salamaleques, truques e metáforas ou até outras figuras de estilo mais bem colocadas na hierarquia das figuras de estilo, é muito mais difícil porque não há maquilhagem para o que se tem para dizer: é o que é. É simples.

Parece e tem de ser, tudo muito simples, mas como sabes, são difíceis as coisas simples. Mas é para aí que quero caminhar: para a simplicidade. Não vejo outra saída. Reduzir as necessidades para passar bem**. Simplificar.

E não é fácil. Nada fácil.

Nesta minha missão de simplificar, fiz pesquisas (muito superficiais, diga-se) e encontrei teorias, planos infalíveis, programas de “destralhagem” e infindáveis vídeos do Youtube sendo que a maioria eram feitos por auto-intitulados “coaches”. O novo hit das profissões! Toda a gente pode ser coach de qualquer coisa. Somos todos especiais. E se somos todos especiais, então ninguém é especial. A esmagadora maioria destes vídeos não diz absolutamente nada, outra parte (que não é a pior) é basicamente o senso comum aplicado à vida quotidiana. E depois há a Marie Kondo. Diz que a Marie Kondo é o suprassumo da destralhagem, organização e simplificação da vida moderna.

Para mim, uma pessoa organizada por si só, é fascinante. Uma pessoa despojada e que não encontre uma qualquer ligação emocional a todos os objectos que acumula em casa é extraordinária (além de fria e sem sentimentos). Deitar coisas fora não é fácil para mim, tenho uma acumuladora cá dentro. Mas eu quero mesmo marie-kondoizar a minha vida, porque, garanto-te… isto é esgotante! O dia não tem horas suficientes para trabalhar, descansar, conviver, dar atenção aos amigos, não descurar a roupa para lavar, nem as compras, porque isto de se acabar o papel higiénico ou as cuecas lavadas é chato, fazer aquele telefonema à mãe porque a conversa não está em dia, mandar uma mensagem à L. porque a vida se encarregou de transformar um telefonema diário de duas horas numa mensagem de quando a quando. E ninguém se zangou. Foi só a complicação da vida que se impôs. E ver aquele filme, que dizem ser tão bom e ler aquelas duas ou três páginas por dia, como decidido nas resoluções de ano novo. E não esquecer de marcar a consulta, ir fazer as análises, aquele pagamento que não pode falhar, aquela reunião…

Tenho tão pouco de Marie Kondo como de Belmiro de Azevedo (no sentido do olho pró negócio e da acumulação de riqueza – só acumulo tralha e lixo). O meu instinto primordial é complicar. E toda a gente sabe que contrariar um instinto natural é um processo difícil, que exige uma racionalidade e consciencialização permanentes e, por isso mesmo, cansativo e muito demorado. Mas vou tentando…

Concentro-me nas coisas simples: passeios ao domingo, um trabalho que te garanta entusiasmo e desafios e o custo da vidinha, que mesmo simples, sai cara. Amigos, que, por uma questão prática, não devem ser muitos, mas leais. Que não liguem todos os dias, mas que apareçam de repente lá em casa porque iam a passar ou porque lhes apetece um café. Ou um lanche. Lanches ao domingo! É tão mais descontraído, tão mais domingueiro lanchar do que jantar. Assim de repente: moelas em molho de tomate com picante, uma chouriça assada, uns ovos com cogumelos, queijos rijos, queijos amanteigados, presunto e pão, daquele que a gente podia comer sem mais nada. E vinho tinto, que aquece e nos consola por dentro. Minis, se for Verão.

E chegando Novembro, que as castanhas assadas te perfumem a casa. E te possas sentar calmamente no sofá em boa companhia, a descascá-las enquanto vês um filme. De pijama provavelmente. Porque é domingo e já foste passear. Terás ido ver o mar. Comer uma caldeirada. Subir uma montanha. Ver um castelo. Um museu. Coisas simples. Simples, como te dizia.

Não é preciso muito: casa quente no Inverno, com mantas e chinelos fofos que não fazem o barulho no chão. Água quente para duches e, sei que não é tão simples ou ecológico, mas um banho de imersão de quando em quando é coisa para nos tornar a vida mais simples. Aposto que a Maria Kondo toma banhos de imersão.

No Verão uns dias na praia. Porque a água salgada tem propriedades curativas, mesmo de longe, da esplanada onde vês os outros a tentar caminhar na areia seca e fervente trazendo às costas os chapéus e geleiras e toalhas e brinquedos e colchões, porque ainda não sentiram necessidade de simplificar ou não podem. E, cansada por eles, pode apetecer-te dormir uma sesta ao sol. E talvez acordes com calor e te apeteça, imagina, dar um mergulho! Ao fim do dia, um gelado, um jogo de matraquilhos, um passeio a pé porque o tempo está bom. E falar. Muito. De coisa nenhuma. Ou em silêncio, porque apesar de parecer a coisa mais simples de todas, é das mais difíceis de alcançar.

Coisas simples e tão essenciais como não duvidar. Não pôr tudo em causa todos os dias. Sentires-te segura. Criares o teu lugar e gostares dele. E acarinhá-lo e ocupá-lo com orgulho, afinal mereces: mandaste tudo à fava, recusas a correria, a ditadura do bom gosto e da vida saudável que te obriga a recusar coisas simples que dão prazer, a ditadura da acumulação de aparelhos interactivos ou que apitam – tudo apita: o despertador, o microondas, o forno, o telefone, o telemóvel, a box da televisão, a televisão, a bimby, o fecho do carro, a marcha atrás, o sinal da gasolina, o sinal do cinto de segurança… Um apito mete-nos em sentido. Somos os cãezinhos do Pavlov com a barriga vazia.

Menos apitos, digo-te eu.

Simplifica. Não duvides do poder que tem a tranquilidade de uma manhã numa esplanada ao sol, com um bom livro ou um caderno para anotar ideias ou projectos. Não penses que um bom filme não te pode ensinar que, quando a essência é de qualidade, quanto mais adereços, mais distracções***.

E eu não sei se a Marie Kondo tem alguma frase de efeito, que é como quem diz, slogan. É provável que sim, uma espécie de lema de vida, de oração ou prece em que os seguidores confiem e possam  recorrer em momentos de maior stress. Sei que se atribui a Coco Chanel a famosíssima “less is more”, que no contexto, é basicamente o resumo desta página e meia: simplifica.

*   “Um dia vou encontrar as palavras certas e elas serão simples” a frase é de Jack Kerouac, a tradução para português é minha.

**    Retirado da letra de “A Gente Vai Continuar” de Jorge Palma – há uma frase do Palma para todas as ocasiões.

*** Assim de repente e sem pensar muito: “História Simples” do David Lynch ou “Nebraska” do Alexander Payne – fabulosos.

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