A Rosa foi de férias

A Rosa

Madalena Palma

A Rosa está de férias nas Bahamas e deixou-me este espaço para ocupar como eu bem entenda.

Ora, uma crónica implica que uma pessoa tenha opinião ou tenha capacidade de explanar num curto espaço um qualquer assunto.

E logo eu, com o feitio que tenho, que acho que deveria haver mais quem não tivesse opinião.

No fundo, a crónica pretende única e exclusivamente entreter os clientes regulares deste meritório espaço e fazê-los pensar. Sinto-me uma privilegiada por aqui estar rodeada de gente inteligente, mulheres de garra, com exemplos fantásticos onde vou buscar muita da energia que tenho.

Começo por dizer que passei os olhos pelas redes sociais antes de abrir a página branca e começar a escrever. Fui procurar inspiração e não é que incrivelmente a encontrei?

E é aqui que eu me quero focar por uns quantos parágrafos.

Sabiam que é possível constatarmos um facto, lermos uma notícia, ouvirmos alguém falar e ficarmos apenas a pensar e não formarmos opinião?

Ou, sabiam que é possível formarmos opinião mas não sentirmos necessidade de a cantar aos sete ventos?

As redes sociais vieram brindar-nos com opiniões de tudo e mais alguma coisa. É sobre a mãe que abandona o bebé no lixo, é a Bolívia, é o tratamento de emagrecimento, é o que se vai fazer para o jantar, é a frase do Chagas de Freitas ou do Dalai Lama, é o filme da moda, é a gaguez, é a mudança da hora, é a violência doméstica. Depois vêm os comentários, o “gosto”, o “adoro”, o “és o/a maior”, “bravo”, “que linda que estás” (e a pessoa não podia estar mais horrível), ou o mais habitual “tens toda a razão, assino por baixo” . Ando com tolerância zero para esse desfile de opiniões, para a hipocrisia das redes.

Era simples: fechava as contas, não é? Mas não é possível porque as redes têm também um valor inestimável na sua primeira função: ser rede e profissionalmente há uma necessidade enorme de as manter. É como tudo na vida, há o lado bom e o mau e aqui a pessoa tem de se aguentar à bronca.

Tenho pena que não haja mais quem possa defender a realidade de que é possível viver e sobreviver na sociedade em que estamos inseridos sem termos necessidade de dar opinião sobre tudo e sobre todos. Principalmente quando a carneirada vai atrás da opinião mais frequente, mais generalizada ou a primeira que viu/ouviu. Sem sequer perder um minuto para procurar mais sobre o assunto e assim poder emitir uma opinião mais elucidada sobre o tema.

É possível viver assim. Sem ir atrás, só porque é o caminho que convém ou é o mais fácil.

Não é uma necessidade vital agradar a gregos e a troianos. Somos todos diferentes uns dos outros e essa diferença deve ser alimentada porque é o que nos torna únicos. A liberdade de pensar e de nos exprimirmos foi uma batalha ganha ao longo dos anos e agora vivemos enclausurados nas opiniões uns dos outros. Isso não é saudável.

Vamos todos pensar pela nossa cabeça e se não tivermos uma opinião não temos de ir para as redes sociais debitar as ideias que ouvimos aqui ou ali.

Acrescento que não é possível ter-se uma opinião sobre tudo. E não há razão absolutamente nenhuma para dar opinião sem fundamentar, ou seja, sem procurar saber mais. É possível vivermos de forma funcional sem a necessidade de termos uma opinião sobre tudo. Porque quando se dá uma opinião sem a fundamentar pomos a nu, de forma muito crua a nossa ignorância, pelo que jamais entenderei quem quer ver a sua ignorância exposta.

Liberdade para pensar é um caminho fantástico e com a prática não se esquece.

Uma opinião sobre “A Rosa foi de férias

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