Atletas e equipas femininas… “Só” muda o TPA?

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ars athletica

Sónia Calvário

A Organização Mundial de Saúde (OMS) publicou ontem um estudo sobre a prática de atividade física entre os jovens (dos 11 aos 17 anos). Não surpreendeu a conclusão de que “são as raparigas que se mexem menos: 85% praticam menos de uma hora” por dia, a recomendação mínima da OMS.

Este foi o mote para abordar um tema que há muito me vem merecendo alguma reflexão: existem ou não especificidades das atletas que imponham uma abordagem diferente no treino e acompanhamento das mesmas, que não passe por meros ajustamentos do implementado para os atletas masculinos?

Constata-se a quase inexistência de literatura sobre esta matéria, exetuando alguns apontamentos relacionados com o atletismo, na vertente de corrida; à semelhança, aliás, do que sucede em quase tudo o que respeite ao desporto no feminino. Contudo, o défice de estudos sobre a matéria não nos deve fazer concluir que as diferenças existentes entre atletas masculinos e femininos não impõem um tratamento diferenciado. Nem o seu contrário, é certo.

Sabemos que, biológica e fisiologicamente, mulheres e homens são diferentes. E que esta diferença influencia o desempenho desportivo, o que serve de justificação para a divisão em muitas competições.

Os homens têm mais glóbulos vermelhos e testosterona, uma estrutura óssea e metabolismo que favorecem a força, a velocidade, a eficiência, a intensidade do exercício físico e a capacidade de combater a fadiga. As mulheres têm, em geral, mais elasticidade/flexibilidade decorrente dos níveis de estrogénio.

A TPM (tensão pré-menstrual), de que sofrem muitas mulheres, com impacto importante na adolescência, estão na origem de diversos sintomas (mais de 200) que influenciam o seu quotidiano, a nível físico, cognitivo, afetivo e comportamental. São conhecidas manifestações uterinas, mudanças de humor, ansiedade, perturbações do sono, falta de atenção, desânimo, descontrolo do peso corporal, sensação de plenitude abdominal, de náuseas e de má circulação periférica, distensão nos membros inferiores, entre outras*. Assim, muitas mulheres, pelo impacto no seu quotidiano, necessitam de ficar, por vezes, em repouso, tomarem suplementos nutritivos, e a auxiliarem-se de medicamentos capazes de reduzir os sintomas que afetam o seu dia-a-dia, que podem originar efeitos secundários.

Tomemos, como exemplo, o futebol, pelo aumento substancial, quase explosivo, do número de atletas e por ser a modalidade que, pelo impacto económico e social que tem e que potencia, poderá contribuir decisivamente para alterar a forma como se vê e se investe no desenvolvimento do desporto, nomeadamente o praticado por atletas femininas.

Muitas raparigas para poderem praticar futebol, ou outras modalidades desportivas, nomeadamente fora dos (grandes) centros urbanos, fazem-no integradas em equipas predominantemente masculinas (podem fazê-lo até ao escalão de juvenis, ou seja sub-17). Isto requer das atletas uma perseverança e resiliência acrescidas pois que, em competição, têm de trabalhar mais, investir mais, sobressair com o seu talento e desempenho, para que possam “vingar” e ocupar um lugar na equipa, uma vez que invariavelmente são vistas como outsiders. Quado existe a possibilidade de integrarem equipas exclusivamente femininas a situação não fica facilitada:

– habitualmente são equipas com grande disparidade etária que pode ir dos 13 aos 19 ou mais, com níveis de desenvolvimento físico muito distinto, o que, por si só, requer, ou devia requerer, treino diferenciado, além de implicar compatibilização de horários, atentos os níveis escolares que frequentam;

– em equipas séniores, que comportam, muitas vezes, jovens com idades (muito) abaixo dos 19 anos, a articulação é também difícil, sendo os treinos condicionados pelo facto de terem de trabalhar ou se encontrarem a estudar, pois a profissionalização é ainda uma miragem, ainda mais longínqua nas equipas de clubes mais pequenos, situados normalmente longe dos citados centros urbanos e que mais têm investido na modalidade no feminino;

– as equipas, constituídas muito depois das masculinas, e também pelo que se referiu quanto à compatibilização horária, têm de se sujeitar à disponibilidade das infraestruturas, não sendo raro que tenham de alterar de campo de jogo (e até de treino), ou de data/horário, com natural interferência na desejada regularidade, essencial para motivar, descansar e alicerçar a sua condição física enquanto atletas;

– as competições femininas de futebol realizam-se em campos sintéticos, que, segundo alguns dados, é mais propenso a lesões, também elas mais prováveis nas atletas femininas, por várias circunstâncias, nomeadamente a composição física, mas também agravada pelas mencionadas condições de treino;

– finalmente, a conjugação de todos estes fatores numa equipa composta por várias atletas, condicionadas por tudo o que se referiu, torna a tarefa de dirigir difícil…costuma dizer-se que “é complicado trabalhar com muitas mulheres juntas”…pois, talvez a explicação passe por algumas razões aqui apontadas (a que acrescem as associadas aos imensos papeis que devem desempenhar, e com sucesso).

Não será legítimo questionar se o desenvolvimento da atividade desportiva feminina não passará também pelo estudo e revisão dos métodos aplicados?

*Quando as mulheres ficam desafinadas – Jornal Público

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