One

O amor à sexta-feira!

Nádia Mira

Voltar a trazer uma versão não era bem o que queria para hoje. Ademais, das várias versões que Mr. Cash canta, este original dos U2 nunca teve lugar na minha galeria do encantamento… até agora. Porque o amor também é isto – a irrefreável vontade de se ouvir repetidamente uma canção de que nem se gosta só porque nos traz uma imagem ou recordação.

Cultivando eu o hábito de não fugir às minhas vontades, hoje não poderia fugir a “One”.

Lançada em 1992 como terceiro single do álbum “Achtung Baby”, da banda irlandesa U2, a original de “One” tem sido, exageradamente, aclamada como uma das maiores canções de todos os tempos, figurando no 36.º lugar na lista das “500 melhores canções de todos os tempos”, elaborada em 2004 pela revista norte-americana Rolling Stone, e ainda assim parece-me infinitamente menos interessante do que a versão de Johnny Cash.

Sobre a letra, Bono esclareceu em 2005 “É uma história sobre pai e filho. Tentei escrever sobre alguém que eu sabia que se estava a assumir e que tinha medo da reação do pai. Pai e filho religiosos… Tenho muitos amigos gays e assisti a situações muito tristes de desamor familiar, algo que é completamente anticristão. Se sabemos algo sobre Deus, é que Deus é amor. Isso é parte da música. Então a música é também sobre pessoas que lutam para ficar juntas e da dificuldade que é permaneceres com alguém neste mundo, seja numa banda ou um relacionamento”.

Embora a letra da música remeta para a dor da separação, o hit é visto por milhões de fãs como um verdadeiro hino ao amor. Talvez seja esta uma das qualidades diferenciadoras de uma boa música – conseguir transformar dor em amor.

E quem melhor para corporizar dor e amor num mash-up vocal do que Johnny Cash?

Considerado um dos músicos mais influentes do século XX e rei da country music, o Homem de Negro, que nos deixou a 12 de setembro de 2003, aos 71 anos, sempre cantou como quem narra as histórias que compõem a sua própria vida e foi certamente este um dos grandes poderes do artista que fez do country uma cena cool. Cash pegou em “One” e depurou-a de tudo o que lhe era acessório, introduzindo-lhe uma leve porém inconfundível patine, apenas ao alcance do próprio e da sua sepulcral voz.

Não é fácil escrever sobre uma música que nunca me encantou e assumo a minha dificuldade em fazê-lo. Há canções que não se dão a análise ou decomposição, dispensam considerações e adjetivos, não se coadunam com observações minuciosas; começam a soar-te a amor apenas porque sim. É importante que as haja, porque estas são apenas para escutar, de sorriso imbecil na cara, segurando a mão de quem te faz querer ouvi-las repetidamente – o retrato acabado do amor… e nem precisava ser sexta-feira. Por acaso hoje é!

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