Gosto da Cidade \ Mariana e Chamilly

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O amor à sexta-feira!

Nádia Mira

Comemoram-se, este ano, os 350 anos sobre a publicação d’ As Cartas Portuguesas, o romance epistolar cuja autoria é atribuída a Soror Mariana Alcoforado, nascida em Beja em 1640.

Não me alongarei sobre a biografia da desventurada freira ou sobre o seu malogrado amor pelo oficial francês Noel Bouton, o Marquês de Chamilly. A mim, que me importo com pouco, basta-me o arrebatamento que me causa cada uma das cinco cartas em que Mariana glorifica e maldiz as sensações que tão breve e intenso envolvimento lhe provocou.

A miúda que gosta de se comover com o amor, de nutri-lo e de observá-lo nos outros, de ver as diferentes formas que pode tomar e como pode brotar nas terras que se afiguram mais áridas, a quem lhe apraz sentir que apesar do amor se revestir de uma absoluta subjetividade e comportar incontáveis vicissitudes singulares, há nele uma universalidade desconcertante, não podia não ser uma incondicional admiradora d’As Cartas Portuguesas e da religiosa de quem se diz ter vivido toda a vida num espaço de apenas cem passos. Aprecio, portanto, qualquer forma artística que evoque tão arrebatada e desgostosa dileção.

São muitos os poetas que na sua obra, de uma ou de outra forma, têm referências às cartas que se creem ter sido escritas pela soror bejense. Entre eles encontramos Adília Lopes, com o poema “Marianna e Chamilly”, que dá corpo ao refrão desta canção d’A Naifa.

Formados em 2004 pela mão de João Aguardela (líder icónico dos Sitiados) e Luís Varatojo, nomes associados à pop portuguesa dos anos 80 e 90, aos quais se juntou a voz de Mitó Mendes e o baterista Vasco Vaz, A Naifa foi um dos projetos mais interessantes e diferenciadores na música portuguesa da primeira década deste século. Posteriormente, para assumir o baixo e bateria, respetivamente, ingressam na banda Sandra Baptista (a Sandra, do acordeão) e Samuel Palitos.

“Gosto da Cidade\Marianna e Chamilly” faz parte do alinhamento de “Não se deitam comigo corações obedientes” o quarto álbum da banda, lançado em 2012, já após a morte de Aguardela que ocorreu em 2009.

O projeto, entretanto, terminou mas deixou-nos, entre tantas outras brilhantes músicas quase sempre escritas a partir de criações de poetas portuguesas contemporâneos, esta canção que soa a melancolia contemporânea, a tédio e a tinto de reserva, a quotidiano e a solidão, a cidade deserta à sexta à noite; soa a taciturnidade e, sobretudo, soa a amor. Não chega a soar a Mariana porque Mariana será sempre mais do que amor…

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