“…love is all we need…”

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Não sei se é o espírito do Natal a tomar conta de mim, se é a incompreensível necessidade de balanços no fim do ano e a tentativa de compensar de antemão um possível resultado negativo… o que é certo é que nos últimos dias tenho tropeçado em boas notícias. E apesar de estar convencida que nos fazem mesmo muita falta, não é coisa que aconteça muitas vezes. Pode ser por ser uma pessoa negativa, mas também pode ser porque as histórias mais felizes não motivam o “clique” – o ouro das redes sociais – e por isso não são “produtivas” o suficiente para quem as divulga.

Em todo o caso, no mesmo dia (e não foi um dia fácil: o Boris ganhou com maioria absoluta – como, senhores? como?), encontrei duas!

A primeira, não sendo uma boa notícia per si, é certamente um contributo importante para uma futura boa notícia. O Chefe da Polícia de Houston (E.U.), por ocasião do funeral de um seu sargento assassinado a tiro, deu uma conferência de imprensa onde atribuiu culpas pelo elevado número de mortes por arma de fogo à facilidade ao seu acesso. A facilidade de acesso a armas de fogo deve-se, segundo ele, ao medo que os senadores republicanos têm de afrontar e “aborrecer” os senhores da NRA. E vai mais longe: “Decidam de que lado estão: dos fabricantes de armas, do lobby das armas ou das crianças que todos os dias são mortas a tiro neste país”. É possível que este chefe de Polícia venha a ser despedido, despromovido, silenciado de alguma forma, mas acredito que é assim que se luta contra os poderosos: com gente que não tem medo de falar em voz alta. 

A segunda boa notícia, é a que dá conta de um maravilhoso acontecimento em Milão: milhares de pessoas tomaram as ruas da cidade como forma de apoio a Liliana Segre, uma sobrevivente do Holocausto, que aos 13 anos foi enviada para Auschwitz. Hoje, com 89 é uma activista activa (e não é uma redundância, é para distingui-la dos nossos activismos de sofá) e recentemente propôs a criação de um comité parlamentar para fazer frente ao ódio, racismo e anti-Semitismo crescentes no seu país.

Dos esforços empreendidos nessa tão nobre quanto necessária missão, resultaram ameaças e ofensas nas redes sociais de tal forma graves que Liliana Segre, necessitou de protecção policial.

Nesta história há mais do que uma boa notícia: numa época em que ser velho é quase crime, uma pessoa com 89 anos pode ser útil ao ponto de se tornar incómoda para nazis, racistas e gente frustrada e carcomida pelo ódio; a segunda boa notícia é que o trabalho de Liliana é de tal forma importante que em pleno Inverno, fez com que milhares de pessoas invadissem as ruas para demonstrar-lhe a sua gratidão, afirmando estar ali para falar de amor e não de ódio: “Deixemos o ódio para os anónimos que se escondem atrás dos écrans“. No curtíssimo vídeo que a CNN fez circular pelas redes sociais pode ainda ouvir-se um “Bella Ciao” entoado pelos milhares de vozes que ali se reuniram.

Para quem como eu, tem tendência a emocionar-se com estes momentos de comunhão, em que pessoas se unem do lado certo da vida e consegue fazer desses momentos razão para restaurar a sua fé na humanidade, é difícil não soltar uma lágrima.

Depois há as notícias tão más e tão tristes que provocam reacção física. Falo de Zé Lopes, actor de 61 anos, desconhecido para a maior parte das pessoas (como a esmagadora maioria dos artistas do país) encontrado morto numa tenda, onde habitava, na mais profunda miséria.

No mesmo dia em que soubemos desta morte (porque os amigos começaram um peditório para conseguir pagar-lhe o funeral), os artistas fizeram uma manifestação exigindo 1% para a Cultura.

Até pode não parecer, mas isto anda tudo ligado. A exigência deste 1% é antiga, mas continua por cumprir; as constantes “patas na poça” do nosso governo de esquerda ma non troppo, que apesar de lamentar profundamente a morte do artista caído em desgraça, continua a assobiar para o lado, como se não tivesse responsabilidade alguma; a evidente incapacidade da classe profissional de se unir em prol de um objectivo comum quando, claramente é muito mais o que os une que o que os separa; as estruturas e artistas que acedendo aos apoios (na maioria dos casos, míseros) que lhes permitirá trabalhar, ficam gratos e receosos de levantar a voz, receiam até que os colegas o façam: imaginem se por causa da contestação os processos de atribuição páram e o dinheiro não chega ou chega ainda mais atrasado que o costume… sabe-se lá o que pode acontecer… É compreensível: somos todos um Zé Lopes em potência e de um momento para o outro, podemos ter uma tenda como casa. Podemos ser orgulhosos demais para aceitar ajudas e responder às mãos que nos esticam: “não quero ajuda, quero trabalho”.

Esta não é uma história natalícia. Os artistas continuam a viver mal. É óbvio que os valores dos apoios não chegam, têm de ser mais bem distribuídos, com critério, claro. Mas tão ou mais importante que isso, tem de haver um sistema de apoio ao desemprego que efectivamente funcione. Falamos de trabalhos precários, cujo o salário médio não suporta meses de “sequeiro”, meses em que não se trabalha. Este não é um país para velhos, nem para artistas.

Mas é Natal, e é possível encontrar boas notícias, se as procurarmos bem. Se conseguirmos passar além. Acredito que se nos deixamos emocionar por uma multidão que sai à rua em defesa de uma mulher que depois de ter vivido um dos maiores horrores da história, aos 89 anos faz o possível para matar o cabrão do bicho do ódio; se encontramos conforto em percebermos que há gente que no meio do ódio, defende o amor, então não está tudo perdido. Se num mundo como este, há protestos a favor do amor então, façamos parte deles. Não porque devemos, mas porque possivelmente, será a única forma de nos salvarmos.

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