Que horas são?

e agora eles

Paulo Barriga

Tenho um, talvez até tenha mais, mas daqueles mesmo grandes tenho com certeza um e apenas este desejo de Ano Novo: não voltar mais aqui. Não voltar mais aqui, pelo menos desta forma. Agrilhoado. Como se fosse um bicho raro posto em exibição perante a multidão. Uma multidão é muita gente ou gente nenhuma. Hoje a multidão sou eu. Apenas eu. É sozinho que aqui estou. Homem numa casa de mulheres. Talvez homem. Homem, em rigor. Numa casa porventura de mulheres. Um homem é uma ilha. E uma ilha tem muitas vozes. Enquanto ilha, hoje sou muitas vozes ao mesmo tempo. Mas nenhuma delas me diz que sou homem. Nenhuma voz. Nenhuma ilha. Nenhuma. Da varanda da casa ouvem-se as contorções do mar. Vila Nova de Milfontes. O mar é uma das muitas vozes que habitam as ilhas e os homens também são habitados por ele. Na mesa da sala de jantar jogam-se cartas. Há sempre uma mesa posta em todos os momentos capitais desta vida. No nascer. Ao pequeno almoço. Quando alguém nos abala como a carta que falta, e falta sempre, no naipe perfeito do jogo da sueca. Um velho disse-me um dia que a vida era um jogo. Não me recordo se o velho era o meu pai. Ou se era a minha mãe enquanto pai e enquanto mãe, que o era aos dois. Ao mesmo tempo. Que ainda o é. Há tanto tempo. Ou eu próprio, que também sou velho. Desconfio que sempre fui velho. Aliás, pressinto que há um velho em cada ser. Mesmo nestes que sobem e descem a rua que vai dar ao mar. É domingo. O supermercado não abre ao domingo. É normal não abrir ao domingo, o supermercado. Assim, a insignificância das horas pressente-se com outra nitidez. É tão cruel matar o tempo, como cruel é trespassar um abdómen tenro com a folha luminosa de uma navalha. Ao domingo não há pão. O supermercado está fechado. Os pescadores do Portinho do Canal não desceram os botes ao mar. Amanhã faltará o peixe nas bancas do supermercado que hoje não abriu, quem sabe por não haver pão para vender aos pescadores. Quando subir à cadeira, lá no alto, não levarei à boca as doze passas de uva que mantenho fechadas na mão direita. Levarei um naco de pão. Ou um peixe. Nem inventarei doze desejos. Inventarei apenas um e só este: não voltar mais aqui. Já passa da meia-noite?

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