O ALENTEJO NÃO É PEQUENO PARA FAZER A DIFERENÇA

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à primeira segunda do mês

Helena Inverno

Ao saber que esta publicação saía na rubrica “à primeira segunda do mês” e que esta era a primeira segunda do ano novo, fez sentido escolher o tema da crise climática que ocupa os principais veículos midiáticos do mundo, estrategicamente rendidos à imagem de Greta Thunberg.

Nasci, vivi e estudei até à primeira parte da minha juventude em Beja.

Aprendi consecutivamente com grandes senhoras do ensino Bejense da área de ciências que em menos de um século o estado iminentemente apocalíptico do qual a Greta é porta-voz chegaria até nós. Ainda em criança fiquei perplexa quando soube que uma única descolagem de avião provocava tanta poluição que o Pinhal de Leiria precisava de um dia para compensar tal desequilíbrio ambiental. Numa matemática impossível de gerir emocionalmente, esquecia a possibilidade dramática de ficarmos sem ar puro juntando-me a outras crianças numa qualquer actividade infantil. Mas os cientistas não interromperam o seu labor e ao longo dos meus estudos na área da Biologia debati-me seriamente com o tema. De tal maneira que, quando fui filmar a primeira vez ao deserto Saára senti um alívio inesperado ao verificar que a vida humana, animal e vegetal, apesar da tremenda dureza, era ainda possível. Possível sim, mas apenas e só para uma escassez impressionante de gente, na verdade só para uma escassez de tudo o que palpita neste mundo. Faltava-me agora a jovem Thundberg a gritar-me com legitimidade que, as minhas diligências e acções sistemáticas para não poluir o planeta (muitas delas aprendidas copiosamente na comunidade de artistas suíças onde tive o privilégio de viver durante alguns anos e que zelava tal como toda a sociedade helvética de manter o seu lixo ʻlimpoʼ, ordenado e lucrativo, aplicando sem pudor multas altas a quem não o fizesse) eram insuficientes e não iriam travar o que pode acontecer no Alentejo cerca de 2030, ou seja, um calor doentio inimaginável até para nós famosos campeões de resistência às temperaturas altas. Um calor que chega primeiro de forma suave e amena no Inverno sorrindo à nossa ossatura, para então chegar com sofrimento acrescido mais adiante, quando finalmente todos nós sem excepção alguma, concluirmos que a situação é irreversível e sentirmos a verdade científica de que o Alentejo, daqui a 90 anos, se torna inabitável.

Sim, inabitável, porque se o gelo dos pólos derreter e o mar chegar a Beja não teremos nenhuma brisa capaz de desfazer os erros do passado, tal como não há brisa capaz de dar vida verde à costa do Saára Ocidental. A crise climática em curso não é negada pelos líderes mundiais das esferas económicas, sociais e políticas. Estes, cientificamente bem informados, possivelmente temerosos do caos social provocado por uma alerta vermelho vindo directamente dos governantes, procuram formas para salvar a população mundial, os milhares de animais em vias de extinção, e, obviamente, os seus postos de liderança e o seu claro posicionamento numa sociedade orientada para o lucro. O rei da Suécia, em Dezembro de 2019, na visita a Índia, ofereceu recursos financeiros para criar uma floresta bastião pulmonar restauradora da ecologia planetária, António Guterres num verdadeiro estado missionário advoga a procura e a implementação de estratégias dignas para todos os seres vivos do planeta, inclusive aconselhando a União Europeia a parar os subsídios para a agricultura destruidora dos ecossistemas e desestabilizadora social, a chamada monocultura que, no nosso Baixo-Alentejo se chama olival (super-)intensivo, e, os principais directores responsáveis pelas linhas editoriais da comunicação no mundo ocidental promovem a primeira campanha ecológica massiva popularizando Greta Thundberg. Em Portugal, a capa da revista Visão – edição especial balanço 2019 apresenta uma fotomontagem impensável no passado recente, a imagem de uma jovem pairando sobre grandes patriarcas, marcas da autoridade governativa ocidental. A grande pequena Greta, serena, olha-nos directamente nos olhos, a sua face desde o centro da imagem remete-nos para a geometria cristã, enviando-nos para uma viagem subliminar, onde secretamente rezamos para que ela conduza rebanhos de jovens deste mundo para outras formas de viver completamente diferentes do quotidiano actual e nos livre do mal do consumismo cego e da gratificação imediata. Donald Trump, representado também na mesma capa, é resumido a uma pequenez no canto inferior, ele será só mais um dos presidentes dos E.U.A., apenas uma mera expressão de mais um império no auge da sua decadência que tem na sua singularidade a capacidade fácil de mercantilizar as suas próprias carcaças e espectros. Greta, soberana, resistente à voracidade do mundo devido a uma síndrome neuro-biológico, desafia as leis do convencionalismo social e político e torna-se a primeira personalidade global, um caso para dizermos Deus escreveu por linhas tortas. Será a sua geração que, muito possivelmente, irá construir o primeiro conselho global deste planeta. Temos já a informação necessária para fazer a mudança da qual Greta é porta-voz, mas os vícios intrínsecos à natureza humana, o medo e a ignorância estruturantes ao comportamento das sociedades conjugados com a escala global tornam tudo desesperante, especialmente quando observamos logótipos de sustentabilidade em meras formas ocas. No entanto, este desafio global tem resolução alcançável e temos no passado a evidência de que a humanidade consegue dar respostas ao aparentemente impossível. Os jovens sentem isso, especialmente quando participam nos rituais dessas sextas-feiras de todos os continentes gritando No One Is Too Small To Make a Difference.

Haja esperança, alento e clareza para iniciar também no Alentejo um futuro digno para o benefício de todos os seres vivos, uma vez que nesta matéria não há fronteiras, nem continentes, nem nós e os outros, nem humanos nem animais.

2 opiniões sobre “O ALENTEJO NÃO É PEQUENO PARA FAZER A DIFERENÇA

  1. Enquanto há vida há esperança, tema muito actual, em que a visão têm que ser global. Os governos e os bancos ainda vão ganhar ainda mais dinheiro, o dinheiro do povo vai começar a ir ainda mais para as grandes empresas multinacionais, que nos vão livrar do lixo que Eles criaram para ter lucro….sempre o lucro…..e o povo continua escravo e não sabe. Grande abraço continuação de boas lutas…😄💖❤️❤️

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