“O que há em mim é sobretudo cansaço – Não disto nem daquilo, Nem sequer de tudo ou de nada: Cansaço assim mesmo, ele mesmo, Cansaço.”*

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Ando numa fona e não sei para que lado me vire.

As festas que se desejam “boas” se alguma coisa, foram cansativas. Divertidas é certo, mas muito trabalhosas e não é que me esteja a queixar, só constato.

Depois é o frio estupidamente exagerado (sim, é Janeiro, eu sei, mas a pessoa pode queixar-se ou não?) que me faz andar encolhida, que por sua vez me provoca dores não muito específicas. Depois são os pés sempre gelados e a estúpida mania de achar que se puxar as meias para cima fico mais quente, quando obviamente só me vai provocar uma dor excruciante nos dedos dos pés por estarem dobrados ao meio o dia todo. 

Preciso de férias e o ano ainda agora começou. Ando cansada e não sei se isto anda tudo ligado, mas o facto de ser janeiro não ajuda. Não sei porquê, foi uma coisa que me apeteceu dizer. 

Quase todos os dias tenho tido ideias de coisas que queria fazer. Depois penso e rapidamente chego à evidente conclusão de que não tenho tempo e depois fico triste e tento pensar noutra coisa menos ambiciosa. E vou de projecto em projecto, de ideia em ideia sem concretizar nada, acumulando mini-frustrações auto impostas e perfeitamente escusadas e inúteis. 

E começo a descascar o tempo. Quero dizer que tento perceber onde ele se esvai. Onde o perco. Quero dizer, para onde desaparece ele quando faço contas à vida do meu tempo e percebo que ele praticamente não vive, o tempo. Quero dizer, o tempo que tenho uso-o no trabalho, a preparar o trabalho, a dormir e não sei para onde vai o resto. E não quero dizer que seja uma moira de trabalho sem tempo para nada, porque os outros têm tempo, só o meu é que não chega e eu não provavelmente não trabalho mais que os outros. Quero dizer, não devo trabalhar mais que os outros todos. Mais do que alguns, sei que sim. E não me estou a queixar, constato. Constato. Constato que o tempo é pouco, a vida é curta e eu para aqui ando adiando projectos, matando ideias porque o tempo não chega e os meios são escassos. E constato. Constato. Constato que já é tarde para algumas coisas. Que não vão acontecer. E constato. Constato que deve ser isto a velhice. Que não é o início dela, é a própria já instalada nos ombros habituados a encolher quando abdicam de mais uma qualquer ideia, provavelmente parva, provavelmente sem pernas para andar, mas uma ideia que seria bom perseguir até que se desfizesse no ar de tão insubstancial. 

Quero dizer, não é que esteja velha. Não estou. O tempo, esse ainda me desaparece sem que dê conta e parece que com os velhos é o contrário: sentam-se à espera que passe e ele não arreda pé. E ainda preciso de dormir muito e diz que os velhos não. Por isso, velha não estou. Mas estou qualquer coisa. E isto devem ser dores de crescimento. Quero dizer, de crescimento não serão, de envelhecimento talvez. Mas não estou velha. Quero dizer, sou nova ainda. E tenho bom aspecto. Na maior parte dos dias em que saio de casa. Sinto-me nova, mas sem tantas possibilidades, será isso? Constato, só constato. Não lamento. Ainda. Pode vir o lamento aí nas linhas de baixo, não me comprometo. 

Quero dizer que há coisas que já não farei ou que dificilmente farei ou me acontecerão. Não que haja alguma frustração, não há. Tenho é medo. Medo de um dia descobrir que afinal o que eu queria mesmo era, por exemplo, ser apresentadora do Curto Circuito e para isso já não vou a tempo. 

E não é bem fazer as pazes com isso, porque não estou zangada. Ando a tentar averiguar dentro de mim se há alguma frustração. Alguma vontade ainda não satisfeita, algum desejo reprimido que ainda vá a tempo de satisfazer antes que seja tarde. E assim de repente, não estou a ver. Constato. Constato que um dia gostava de correr uma maratona. Mas é só um dia, não é agora. Para já, a vontade não é assim tão grande e sei que mesmo velha, é possível um dia decidir, dedicar-me e conseguir -já aconteceu, eu vi no facebook. Por isso aguardo pelo dia em que acordarei com vontade de fazer desporto (nunca aconteceu), ainda tenho tempo. 

Não tenho plano a longo prazo. Constato. Constato que nunca tive. Sempre achei que havia tempo. E não, afinal não é assim tanto. E não estou azeda ou queixosa. Constato. Constato. Talvez um pouco queixosa, constato. Quero dizer que podiam ter avisado que era assim. Que a vida muda muito. Quero dizer a gente muda muito. Com a vida. Ou não, não sei. Mas constato. Apenas constato que as coisas mudam muito e de repente já não identifico o que me rodeia e é difícil fazer reconhecimento e decidir coisas. E eu nunca fui boa a decidir. Mas chega uma altura em que o ralenti não é bom guia. Quero dizer. Constato.

* O título é extremamente exagerado quer em relação ao texto que precede, quer em relação à sensação que o provocou, mas em todo o caso é sempre bom citar Álvaro de Campos… 

Excerto do poema “O que há em mim é sobretudo cansaço” de Álvaro de Campos

 

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