Amália

O amor à sexta-feira!

Nádia Mira

Saudade. É das palavras mais usadas no universo poético e musical português e temos por ela uma reverente estima. Sentimo-la nossa, numa relação de exclusividade que não passa de um mito, mas que não deixa de nos fazer sentir especiais, como se a nossa capacidade de amar e sofrer fosse superior, apenas pelo facto da nossa língua conter tão complexo vocábulo. O fado, e a sua figura maior, Amália Rodrigues, terão sido preponderantes no firmar de tal convicção.

Lançada em 2014 por Conan Osíris, “Amália” integra o EP Silk e marca um novo rumo na carreira do artista pois foi a primeira música em que sentiu, como confessou em entrevista ao Ípsilon, que talvez houvesse uma hipótese de não ter vergonha da sua voz.

Tiago Miranda, que se apresenta como Conan Osíris, foi uma das figuras de 2019, tendo vencido o Festival da Canção e incendiado as redes sociais. Conta, nas inúmeras entrevistas que deu, que as manhãs de sábado lhe ficaram gravadas na memória com a mãe a aspirar a casa enquanto ouvia Amália, kizomba ou a dupla Leandro e Leonardo. E que depois cresceu a ouvir hip hop na MTV e, mais tarde, a descobrir nomes como Björk ou Sigur Rós. Assim se explica a panóplia de referências que a sua música parece conter.

Conan Osíris soa a flamenco e a Magreb, a fado e a cante cigano, mas também soa a kizomba e a funaná, a Bollywood e a pistas de carrinhos de choque. Osíris soa a tudo isso e soa, sobretudo, a sentimentalidade trágica.

“Amália” é um hino à saudade, ao qual o meu absurdo romantismo não se permite ser indiferente. É comovedor que o músico tenha uma relação tão visceral com os versos que canta, ao ponto de ter terminado a gravação da música em lágrimas.

A evocação da diva do fado a dar título à canção em que Conan não teme personificar a saudade e pô-la a flirtar com a morte é a composição perfeita para impressionar e perturbar uma romântica fatalista como eu.

É sexta-feira, esta noite existirá certamente uma pista de dança à espera de cada um de nós e alguém ansioso por nos segurar a mão e nos levar até lá. A mim, tem-me faltado a vontade de dançar. Pode ser que seja hoje… se a saudade me deixar.

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