a senhora que se segue: Ana Ademar

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Ana Ademar é colaboradora do Expoente M, desde o início do blog. Mensalmente partilha interessantes reflexões nas crónicas na sua rubrica o “carrossel dos esquisitos”.

Criatividade, perseverança, humor, persistência e consciência cívica, social e ambiental não faltam a esta mulher das artes, atriz, agora empresária.

Ana Ademar é apresentada na primeira pessoa é a Senhora que se segue.

Ana Ademar||Expoente M Rádio

O meu nome é Ana Ademar, tenho quase 40 anos. Cresci no Cacém, a dada altura decidi que ia ser actriz e que era a única coisa que eu realmente queria fazer e fui para Évora estudar. Trabalhei nalgumas companhias de teatro e em 2007 acabei por assentar arraiais em Beja.

Sempre gostei de escrever, mas custa-me sempre começar. E as mais das vezes não sei quando devo parar.

Continuo a gostar muito de teatro ainda que não o faça já profissionalmente. Sou gestora da Oficina Os Infantes, um bar que me dá muito trabalho, mas muito gozo.

Gosto de conseguir provocar emoções, transformar pequenos momentos, ver as pessoas felizes por bocadinhos. E não é porque seja boazinha, é essencialmente uma coisa egoísta: faz-me sentir capaz.

Tenho sentido dificuldade em assumir por completo a minha idade porque não me vejo com 40 anos, mas já percebi que é comum.

Aceitei responder a esta entrevista porque nunca pensei que me faria pensar tanto. Mas enfim, uma análise aprofundada sobre mim apesar de não muito interessante, o que lamento desde já, deve ser uma coisa positiva. Pelo menos para mim. Imagino eu.

logoMTem a vida que idealizava?

Para dizer a verdade não tenho noção de ter idealizado coisa nenhuma. Atribuo isso ao caminho profissional que tomei. Não é uma área onde se consiga grande estabilidade (ou alguma sequer, na maior parte dos casos), por isso acho que por uma questão de auto-preservação, acabei por não idealizar grande coisa. Quando comecei a perceber efectivamente no que me tinha metido ao optar por um curso de teatro, o maior sonho era conseguir manter-me a trabalhar mais do que 3 meses seguidos. Acho que os sonhos ou as idealizações foram sempre a curto/médio prazo.

logoMA intervenção/participação na sociedade deve ser uma preocupação de todos?

Sim, claro que sim. Penso ser esse um dos pilares da democracia. A condição para nos mantermos a viver em democracia é estarmos atentos e participar activamente na vida da sociedade. Mas é difícil. Eu sei, porque tento e é difícil.

Parte dessa dificuldade tem que ver com a qualidade da informação a que tens acesso. E neste momento é muito difícil acederes a informação séria e imparcial. Apesar de bombardeados com informação a toda a hora, sabemos que grande parte dos sítios que a “dispara” tem interesse, directo ou indirecto, sobre como a mesma é percepcionada pelo público. Não é suficiente ler as “gordas”, é necessário saber de onde vem aquela notícia, compará-la com outras fontes. Exige esforço e tempo. E tempo não há muito.

A escola não te prepara para isso, não há educação cívica. Temos de fazer figas para que os pais e professores entendam a necessidade e que eduquem ou dirijam os miúdos nesse sentido. E contar apenas com isso é ser ingénuo. Ou parvo (tenho tendência para confundir os dois conceitos).

Há aquela frase que aparece amiúde em cartazes nas manifestações: “quem adormece em democracia acorda em ditadura”. E depois há a outra que diz: “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. E eu acho que estão as duas certas. Até porque se há coisa que os últimos anos de vida política portuguesa nos ensina é que relaxar no que toca à parte da “vigilância” é o que nos lixa. Sempre.

logoMNo seu caso como a pratica?

Nos últimos anos a minha “prática” está muito em baixo. Tento manter-me atenta. Tento conversar com pessoas. Gosto de o fazer. Mas também tenho de assumir que passo por fases em que preciso de desligar de tudo. Além de que tenho a sensação de que a democracia que temos não é plena no sentido de podermos dar a nossa opinião livremente. Assumires opiniões concretas publicamente acarreta consequências. Sérias, por vezes. E às vezes é mesmo imperativo que te cales. Já vi acontecer.

Durante muitos anos o meu trabalho era em si, uma militância. Trabalhar nas artes é uma militância. Algumas vezes tive a sorte de poder trabalhar com textos interventivos, políticos, que levantavam questões, que faziam as pessoas questionar-se.

Penso que qualquer opção consciente que tomemos na nossa vida é um acto político. E não confundamos os conceitos “partidário” e “político” são coisas bastantes diversas.

Escolher ter um filho ou escolher não ter, adoptar um animal doméstico ou não, comer ou não carne, fazer reciclagem, comprar num hipermercado ou num mercado tradicional, comprar a “fruta feia”, jantar fora, o restaurante que se escolhe para jantar… tudo são escolhas políticas. E nesse aspecto, tento ser consciente e activa.

Já estive envolvida em movimentos de cidadãos que me proporcionaram experiências muito fortes e que me marcaram profundamente e me fizeram conhecer pessoas incríveis. Já fiz voluntariado em associações sem fins lucrativos de diversas áreas. Já fiz donativos para outras associações. Já fiz recolhas de sangue e medula, de bens e alimentos em diversas ocasiões. Milito aCtivamente contra o acordo ortográfico. Não pago com multibanco em negócios pequenos porque os bancos são tiranos. Não tenho multibanco no meu negócio pela mesma razão. Partilho informação que considero séria e fidedigna e continuo, às vezes a dar a minha opinião, aqui pelo Expoente M ou na rede social ao lado. Acho que a minha militância maior é tentar ser boa pessoa e consciente.

logoMComo vê a conciliação, atualmente, da vida profissional e familiar/social?

Desde há dois anos e meio que faço a gestão, a programação e trabalho diariamente na Oficina Os Infantes, que é um bar e uma série de outras coisas: espaço de exposições, livraria, local de concertos, de formações, etc. Trabalho por conta própria e apesar de isso ser libertador numa série de coisas, acarreta uma série de outras.

Tenho de estar atenta a tudo e apesar de muito esforço nesse sentido, não sou uma pessoa particularmente organizada ou metódica. Provavelmente por isso, sei que gasto muito tempo desnecessariamente. Ou seja, com um nadinha mais de método penso que conseguiria “despachar” coisas mais rapidamente fazendo com que sobrasse algum tempo para mim, para a minha vida familiar e social.

A minha vida familiar está assente essencialmente na disponibilidade da família para me acompanhar. A minha vida social é basicamente inexistente. Estou numa fase que o plano ideal de vida social é estar em casa, a conversar, a comer e a beber um bom tinto com poucas pessoas de cada vez. Não sei se é da idade, se consequência do trabalho. No entanto, as minhas folgas são os dias úteis dos restantes dos mortais, o que acaba por tornar muito difícil conseguir levar essas sessões de comilança, “conversagem” e “beberagem” avante.

logoMNa sua vida existe equilíbrio entre a vida profissional e familiar/social?

Como ficou explicito na resposta anterior: não. Responder à pergunta anterior levou-me a concluir que a vida familiar que tenho me é imposta pela família sob ameaças sérias de corte de relações (devem mesmo gostar de mim, por alguma razão) e a vida social é praticamente não existente, tirando aquela que é feita em contexto de trabalho e acho que essa não conta.

logoMJá sentiu que a sua afirmação profissional e/ou pessoal foi dificultada ou condicionada por ser mulher?

Já senti que foi dificultada, mas só me apercebi disso quando pensava na situação aposteriori: o famoso mansplaining, não te deixarem acabar raciocínios porque acham que já perceberam o que queres dizer e acabam a explicar-te o que tu estavas a dizer, interromperem-te constantemente deixando duas hipóteses: gritares ou engolires o sapo…

logoMAs mulheres partilham pouco, guardam muito para si?

Acho que engolem mais sapos. Acho que sofrem mais em silêncio ou tenho ideia disso. No meu caso não, eu queixo-me muito e em voz alta.

logoMO que é preciso para que as mulheres possam ver garantido o seu direito à igualdade?

Pffff eh pá… eu já tenho um problema sério em ser sucinta, mas as perguntas não ajudam…

Acho que o primeiro passo é consciencializarmo-nos de que somos efectivamente iguais. A mudança tem de partir de nós próprias e acho que está a acontecer, devagar demais para o que gostaríamos e que é necessário, mas está a acontecer.

A mudança tem de partir das mulheres, mas não basta. É fundamental que os homens se juntem à luta, que é de todos. Falamos de direitos humanos e não de uma questão de “opinião”.

Ontem, por ocasião do Dia da Mulher saiu uma notícia na TSF que dá conta de um estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e os resultados são avassaladores: “segundo o Índice de Normas Sociais e de Género, 91% dos homens e 86% das mulheres mostram pelo menos um preconceito contra a igualdade de género”, 28% das pessoas entrevistadas considera aceitável que um homem bata numa mulher, “o número de mulheres com preconceitos contra mulheres subiu de 57% para 60% no caso dos homens aumentou de 70% para 71%” e conclui que “os níveis de preconceito não estão ligados ao grau de desenvolvimento do país”. Portanto isto está efectivamente mau!

É preciso deitar mãos a isto, não é? Vivemos num país em que o número de mulheres assassinadas em contexto de violência doméstica é brutal e devia envergonhar-nos a todos.

logoMComo podem as mulheres contribuir para a concretização dessa Igualdade?

Acho que passa, como referi anteriormente, pela consciencialização de que temos os mesmos direitos. Uma consciencialização real e não uma frase que debitamos quando se fala no assunto. Porque é fácil dizer que somos iguais e depois, pegando num exemplo básico, assumir que as idas ao médico com os miúdos é uma tarefa da mãe, ou que ir às compras e tratar das refeições também, que “faz parte” não ter tempo para si, etc. Penso que as mulheres têm de se apoiar mais umas às outras e umas nas outras.

logoMQual é o seu maior sonho?

Acho que nunca consegui responder a esta pergunta. Sempre tive dificuldade em decidir coisas, em não ter dúvidas, em ter taxativa.

Neste momento o meu maior sonho é conseguir levar a cabo o projecto que tenho para a Oficina, conseguir alguma margem de manobra quer em termos de recursos humanos quer a nível financeiro para desenvolver as ideias que tenho, que estão muito relacionadas com a arte e a cultura, que é afinal a minha área de formação e de preferência.

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