A rotunda cerebral com o Covid 19 em ares de Marquês de Pombal

carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Não é possível escrever sobre outra coisa.

Desde há uns dias que sinto que o meu cérebro é uma rotunda: o Covid-19 bem instalado no centro, qual Marquês de Pombal, à roda do qual seis ou sete ideias circulam ininterruptamente. Meteram o pisca da esquerda e nenhuma parece querer sair ou abrandar sequer para tentar desfiá-las, como se faz ao peito do frango, analisar cada uma, as ramificações e chegar à conclusão se aquela ideia em particular merece o privilégio da rotunda ou se é para estacionar em qualquer lado.

Aqui ficam, sem ordem, porque numa rotunda onde ninguém quer sair, não há prioridades.

Ideia 1

Isto vai piorar, isto vai piorar, isto vai piorar.

O número de casos está a subir. Isto ainda não é nada.

Ui isto é tão mau. Caraças. Caraças. Caraças.

Esta gente é parva? Não se metem em casa? Que estupidez. Os portugueses são uns fixes. Somos mesmo um país do caraças.

Ideia 2

Eu queria tanto uns dias para estar em casa e fazer coisas, mas que coisas eram? Devia ter apontado. Acho que ainda não estou aborrecida. Será que já estou aborrecida?

Vou desligar a televisão e o facebook e ver notícias só às horas certas.

E se conseguir arrumar e limpar a casa toda antes disto tudo acabar o que é que faço?

Devia levantar-me do sofá. O que é que havia para fazer?

Ideia 3

E quando isto da doença acalmar quanto tempo vamos levar a ter normalidade? E a quantidade de empregos que se vão perder? Isto vai ser uma catástrofe. Vai correr tudo bem. Vai correr tudo bem. O importante é ter saúde. E o dinheirinho, pá? E as falências?

Ideia 4

Será que há alguém que eu conheço a precisar de compras ou outra coisa qualquer e eu não me lembrei de perguntar? Quem, quem, quem…..

Há-de haver pessoas muito solitárias neste momento, sozinhas. A precisar de companhia. Quem, quem, quem….

Ideia 5

Estado de emergência. Era mesmo preciso? Estabelecer regras novas todos os dias estava a funcionar. O que é que isto quer dizer mesmo? Porque é que estado de calamidade me soa muito pior que estado de emergência. Há hierarquia nas palavras?

É verdade que a PSP meteu uma foto de agentes com um ar de bad-ass-motherfuckers e com uma espada na mão? Era uma piada? Tipo Walkind Dead, mas a sério? Aquilo é mesmo uma espada? WTF?!

Ideia 6

O que é que vou retirar desta situação toda e em que é que isto vai alterar a minha forma de estar, de ver o mundo, de viver? Devia começar a fazer meditação agora.

Ideia 7

“Reduz as necessidades se queres passar bem

Que a dependência é uma besta que dá cabo do desejo

E a liberdade é uma maluca, sabe quanto vale um beijo”*

Ideia 8

O que vai ser do meu bar? Devia aproveitar o tempo para pensar e fazer planos. Boa ideia. Vou sentar-me num sítio, desligar tudo e pensar. Escrever para pensar. Fazer planos. Estabelecer objectivos. Ter ideias. Não me posso esquecer de escrever para não me esquecer.

 

E tem sido isto.

A normalidade da anormalidade da situação ainda não se instalou.

Aguardo.

Para já no sofá. Eventualmente vou-me sentar à secretária para tentar pensar por escrito. Logo se vê.

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