Raios de Sol

A Rosa

Madalena Palma

Fugindo dos temas de sempre e de todos os dias apetece alvorar para os recantos da memória onde o maior dos problemas era conseguir tirar a bola de futebol debaixo do carro do vizinho chato, ou esconder da minha mãe o joelho esfolado ainda com resquícios de gravilha. É na memória que está tudo. E é na memória que vou também buscar lugares seguros, momentos felizes, pequenas ilhas onde repouso os braços enquanto a vida continua a navegar por mar alto.

Que saudades desses tempos. Aos primeiros raios de sol saltava logo da cama. Os dias eram enormes mas o mundo que queria conquistar era ainda maior e não havia tempo a perder. Os ténis, os calções e a t-shirt eram a armadura num corpo franzino e o cabelo ondulado emoldurava o rosto cheio de vida e de brilho. “Até logooo!” era assim que me despedia. Já na rua, a minha mãe ainda espreitava para ver para que lado ia, como se essa informação a acalmasse ou lhe desse alguma orientação sobre o meu destino. De nada servia quando o quarteirão era pequeno para tudo aquilo que queríamos conquistar ao longo do dia. Na altura a única forma de contactar os amigos era indo buscar à lembrança do dia anterior e saber onde tínhamos ficado e esse seria o ponto de encontro. Era certinho. Tal como era certo que o único relógio que tínhamos era a fome e era nesse momento que sabíamos estar na hora do regresso a casa. Até lá, não havia muro, jardim, árvore, monte de terra, lago, casa abandonada que não fosse conquistada por aqueles guerreiros. E eramos tantos. E eramos tão diferentes. Mas ainda hoje passo por certos sítios e ainda sei qual era o nó onde colocava o pé para subir ainda mais alto. Polícias e ladrões, índios e cowboys, bicicletas, carrinhos de carretas, pistolas e espingardas de pressão de ar, fisgas, skates, patins, descidas a pique, tiros, boladas e pedradas, são exemplos de como ainda hoje não sei como estamos todos vivos e sem mazelas físicas. Mas éramos felizes e sabíamo-lo bem. O ser destemida e não ter medo, nem de bichos, nem da noite e nem do desconhecido vem daí. Desses raios de sol que me enchiam os dias, me douravam a ponta dos cabelos e o futuro.

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