a senhora que se segue: Maria Manuel Coelho

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Maria Manuel Coelho tem 56 anos e é Antropóloga de formação. Foi professora e Vereadora do Município de Beja.

O seu percurso profissional está intimamente ligado à área social, incluindo o trabalho com os mais novos, exercendo atualmente as funções de Coordenadora da Equipa Técnica Regional do Alentejo da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção de Crianças e Jovens.

Maria Manuel Coelho colabora com o Expoente M desde o início, com crónicas pontuais, e é a Senhora que segue.

logoMTem a vida que idealizava?

Se formos ver o que idealizávamos para nós, há alguns anos, descobrimos que esse ideal muda à medida que envelhecemos e adquirimos maturidade (riso). 

Quando estava a terminar a minha Licenciatura em Antropologia no ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas) em Lisboa, achei que o meu futuro seria numa floresta da América do Sul a estudar comunidades de chimpanzés, qual Jane Goodall alentejana. Em vez disso, ainda antes de concluir o curso, comecei a dar aulas de Geografia e Antropologia a miúdos do 10º ano, alguns quase com a minha idade, num liceu de Loures.

Acomodamo-nos e os sonhos de aventuras longínquas vão-se mudando para metas cada vez mais perto, que passam por termos dinheiro para comprar o nosso primeiro carro, depois uma casa e por aí fora….Por isso não, não tenho a vida que idealizava, tenho a vida possível mas pela qual me sinto grata.

Não consegui exercer a Antropologia, com a paixão que esta disciplina nos incute e essa é uma das minhas frustrações. Ao longo de 12 anos como professora, tentei transmitir aos miúdos essa visão do mundo arrebatadora, com as lições que as comunidades primitivas ainda hoje nos ensinam. Alguns lembram-se e hoje, com mais de 40 anos de idade, ainda me chamam “Professora” quando me encontram na rua. 

Despois do ensino, continuei no serviço público, desta vez no Poder Local. Fui eleita Vereadora do Município de Beja em 1998 e aí   experienciei o sentimento de realização pessoal que é deter o poder de transformar a nossa terra, deixar marcas, construir coisas e melhorar a vida das pessoas. Objetivamente, fui responsável pelo pelouro da Habitação Social e pela construção e entrega de mais de 300 fogos a famílias carenciadas. É uma coisa que nos marca. No pelouro da Ação Social, com a equipa de técnicos do Município que coordenei, pudemos dar corpo a muitos projetos que mudaram a forma de vida de populações mais frágeis, como é o caso dos idosos, permitindo-lhes sentirem-se ativos, com atividades lúdicas de onde se destacou o “BejaSénior” ou as feiras e Centros de Convívio nas freguesias rurais, bem como a construção do Centro Social do Lidador. Todo o meu percurso tem sido na intervenção social, na concretização de ações, medidas e projetos de apoio a minorias, a públicos carenciados. Fazer parte duma CPCJ (Comissão de Proteção de Crianças e Jovens) durante 9 anos – onde podemos, literalmente, salvar a vida de alguém – e agora, desde há quase um ano, pertencer à Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens, tem sido a cereja no topo do bolo duma carreira sempre ligada à proteção dos mais vulneráveis.

logoMA intervenção/participação na sociedade deve ser uma preocupação de todos?

Sem qualquer dúvida que sim! Se não exercemos o nosso direito de participação como queremos ter legitimidade para nos queixarmos de algo, para questionar ou contestar o status quo? Não devemos esquecer que a Democracia, no nosso país, foi conquistada após 40 anos de Ditadura. Com o sangue de muito dos nossos antepassados, que nunca desistiram de lutar para que hoje tivéssemos direito a falar, a votar, a participar ativamente na vida da nossa comunidade, sem medo. Não compreendo como pode alguém dizer que não liga a política, quando é a política que decide as suas vidas! Desde as coisas mais simples, como o preço do pão, até à diferença entre a vida e a morte, quando precisamos de ser tratados no Serviço Nacional de Saúde. Não se tem consciência do que seria de nós se este não existisse, como acontece nos Estados Unidos, por exemplo? Faz-me confusão que existam pessoas que abdicam da sua voz e poder transformador na sociedade, ao acomodarem-se ao seu individualismo.

logoMNo seu caso como a pratica?

A experiência autárquica possibilita-nos uma forma muito intensa de intervenção na sociedade. Desde logo pelo poder de concretização que mencionei atrás. Mas também pela visibilidade pública que nos traz. Ao longo de 20 anos, foram centenas as participações públicas em congressos, eventos, seminários, debates, formações, workshops em que, por um lado, pude partilhar a filosofia de vida e ideológica que praticava na minha profissão e, por outro, retirei enormes aprendizagens. É um privilégio, de facto, porque nos permite conhecer muita gente, de todos os quadrantes sociais e esferas do conhecimento e que nos engrandecem e transformam. A militância num partido político é outra forma de intervenção transformadora na sociedade, de luta pela mudança e melhoria contínua, de criatividade na construção das soluções para os problemas com que se debatem as pessoas.

Continuo a praticar essa cidadania, todos os dias, através de Causas que abraço, ou nas funções da profissão que exerço atualmente, no Sistema de Proteção de Crianças e Jovens Português. Os jovens são os cidadãos que transformarão a sociedade do amanhã e a sua “educação” para o pensamento crítico é determinante para o futuro.

logoMComo vê a conciliação, atualmente, da vida profissional e familiar/social?

Embora ainda haja muito caminho a percorrer, penso que vai sendo cada vez mais fácil, mas apenas em determinadas profissões, as que conferem mais direitos e condições aos seus quadros e trabalhadores. Claro que, para as mulheres, o desafio é sempre acrescido pois ainda são elas que carregam o maior peso das tarefas domésticas e de cuidar da família. A batalha pela igualdade de género e de oportunidades mantém-se premente na sociedade portuguesa. Algum investimento em serviços de apoio à família, os direitos conquistados em termos de maternidade e paternidade, ajudam a conseguir esta difícil gestão entre a necessidade de trabalho e de uma carreira profissional e as necessidades da família e, sobretudo, dos filhos. Mas o principal, nesta como noutras matérias, continua a ser a necessidade de educação para a igualdade, que deve começar logo na educação pré-escolar. Se educarmos homens e mulheres como iguais, com equidade no respeito pelos direitos de cada género, teremos uma sociedade futura em que a conciliação de tarefas será vista como o normal e em que muitos fenómenos, como o da violência doméstica, ou os maus-tratos a crianças, decerto serão reduzidos.

logoMNa sua vida existe equilíbrio entre a vida profissional e familiar/social?

Felizmente, enquadro-me naquelas que teve a sorte de sempre ter atividades profissionais em que esse equilíbrio era mais fácil de alcançar. A possibilidade de praticar horários ajustados, com reduções por maternidade, amamentação, ou de ter funções em que se aplicava a isenção de horário, sempre me permitiu fazer essa conciliação sem grandes dramas. Apesar de me divorciar muito cedo, também a ajuda dos meus pais numa fase em que os meus dois filhos eram mais pequenos, foi determinante para o exercício da profissão com produtividade e qualidade, mantendo uma estreita ligação afetiva com a família e disfrutando de momentos de lazer e enriquecimento cultural, através da participação na intensa oferta que a nossa cidade, em tempos, nos proporcionou.

logoMJá sentiu que a sua afirmação profissional e/ou pessoal foi dificultada ou condicionada por ser mulher?

Há sempre algum momento em que o sentimos, mesmo que não de forma evidente mas, por vezes, um pouco dissimulada. O pensamento misógino ainda está muito presente na nossa sociedade patriarcal, em que, até há bem pouco tempo, a mulher era propriedade do marido e precisava da sua autorização para fazer certas atividades…

Uma mulher em cargos de poder, por exemplo, é sempre vítima de ataques ao seu desempenho que, no caso dos homens, não se verificariam. Ainda existe uma objetificação da mulher, que estimula comportamentos machistas. Se for afirmativa e assertiva é acusada de histérica, ao passo que o homem é elogiado por ser firme. Se for mais discreta é acusada de incompetente, enquanto o homem é elogiado pela sua ponderação. Os exemplos são inúmeros e, embora a diferença salarial se verifique cada vez menos, as mulheres têm o dobro do trabalho para se afirmarem e para conquistar respeito e admiração pelo seu trabalho. Também julgo que se deve um pouco a este desporto nacional da má-língua que nos caracteriza.

logoMAs mulheres partilham pouco, guardam muito para si?

Julgo que partilham muito, mas guardam a maioria. São capazes de falar de si, dos seus sonhos, medos e mágoas, com os seus melhores amigos mas aquilo que as compõe é de tal maneira vasto, que o corpo do iceberg fica sempre submerso. Nunca se consegue conhecer totalmente uma mulher, os seus pensamentos mais profundos, a sua essência. Nem ela, a si própria, se compreende na totalidade! Os homens são mais simples, objetivos, fáceis de ler.

logoMO que é preciso para que as mulheres possam ver garantido o seu direito à igualdade?

É como referi anteriormente, acredito que passa pela educação das gerações futuras. Pela construção de uma sociedade futura em que homens e mulheres sejam olhados de igual forma, com a prática do respeito mútuo. Há que continuar a insistir nesse direito, a exigir dos poderes públicos que o reconheçam e pratiquem. Com muitas campanhas, com muitas medidas públicas de prática efetiva da igualdade de oportunidades entre géneros.

Só percebendo que homens e mulheres têm o mesmo potencial e capacidades, será possível conferir a cada um tarefas iguais, com igual valorização e que permitirão igual desempenho.

logoMComo podem as mulheres contribuir para a concretização dessa Igualdade?

Provando que são capazes de fazer igual e, muitas vezes, melhor que os homens! Sendo cidadãs ativas e participativas na vida da sua comunidade. Ajudando a evoluir, dando o melhor que podem, construindo e mostrando as suas conquistas. Conquistando respeito e reconhecimento, pela sua atitude em sociedade.

logoMQual é o seu maior sonho?

Esta pergunta é a mais difícil de todas….

Seria, talvez, poder ainda viver num mundo como o que tenho descrito ali atrás. Como já não chego lá, espero que os meus filhos ou netos ainda venham a disfrutar dele.

Na minha idade, julgo que o maior sonho seria poder enfrentar a velhice num país tropical, numa casinha à beira-mar, de chinelos, roupa leve e a beber água de coco. Penso que, nesses locais do planeta, a vida passa mais devagar e, quando já ultrapassámos o meio século, o objetivo é esticar ao máximo o tempo que nos resta, saboreando as pequenas coisas que cada novo dia nos oferece.

 

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