São lágrimas, Rosa. São lágrimas.

A Rosa

Madalena Palma

Na tela branca, o cursor sempre pisca uns minutos à espera de inspiração para escrever.

Penso nas lágrimas que tenho nos olhos. São imensas. Limpo-os e até parece que vêm ainda mais fortes ganhando espaço no rosto. Cheias. Olho para baixo e vejo nas calças de ganga duas manchas enormes. Nem sei bem há quanto tempo choro mas sei porquê. Estava a ver vídeos. Saltando de uns para outros mas todos eles sobre reencontros. O filho que vem da guerra. A filha que vem de longe. A mulher que reencontra o marido depois de uma longa hospitalização. A noiva a chegar ao altar. A surpresa da festa de aniversário. O cão que finalmente foi encontrado pelos donos.

Nestas coisas, sou uma autentica Maria Madalena.

Choro imenso. Aquelas lágrimas gordas. Volumosas. Que caem ruidosamente.

Transporto-me para aqueles momentos e quase sinto aquela emoção. É estranho mas não há mal nenhum em ficar feliz pela felicidade dos outros. Não me sinto nem mais frágil nem mais enfraquecida e muito menos me caiu qualquer parte do corpo. Se bem que cada vez que sinto isso não me importasse que caísse parte da zona abdominal. Enfim. Tudo isto para dizer que não vem mal ao mundo ficarmos felizes pelos outros. Mas aquela felicidade genuína mesmo. Que vem de dentro. De nós. Não das entranhas ou do intestino grosso ou dos ácidos do estômago mas do coração. Da alma.

É certo que quando a felicidade de outros nos incomoda no lugar de nos deixar felizes ou até indiferentes, é porque não estamos bem. Seja porque lutámos da mesma forma para alcançar aquele objetivo e não o tenhamos atingido, ou apenas porque não queremos ver aquela pessoa feliz porque não gostamos dela.

Propositadamente ou sem querer, comparamos a sua felicidade com a nossa tristeza e sentimos que há algo de injusto nessa situação. Mas é certo que isto só acontece quando vemos o outro como se ele fosse um reflexo de nós mesmos. Ignoramos o contexto e o caminho para a sua conquista e focamo-nos apenas no resultado que alcançou. Um resultado que também tínhamos desejado para nós. É aí, precisamente nesse lugar, que o nosso ego se fere e a felicidade do outro nos incomoda. Mas, por outro lado, quando decidimos olhar para a pessoa como alguém independente de nós, passamos a entender o seu mérito e ficamos felizes por ela. Simples não é?

Aprende-se. Não nos deixemos inundar por pensamentos e sentimentos negativos, derrotistas e egocêntricos.

Há situações, conquistas, momentos, que desejamos fervorosamente e nunca conseguiremos. Por mais que lutemos. Há, também, coisas que queremos e só conseguiremos depois de muito esforço. Muito mesmo. Há também aquelas que chegam até nós com muita mais facilidade do que pensávamos. Que literalmente nos caem no colo. Mas isso acontece-nos a todos. O que muda são as circunstâncias e as proporções. Mas o que tem valor para mim não é o mesmo que tem valor para ti, que me estás a ler há largos minutos.

Não nos esqueçamos que a evolução de cada pessoa é única e não tem nada a ver com a dos outros. As pessoas são diferentes e estão em diferentes circunstâncias e momentos. Portanto, os resultados obtidos também serão diferentes.

Deixemos de lado a mesquinhez e vamos todos começar a reconhecer com generosidade que o outro merece tudo que conseguiu.

Não custa nada. Mas se mesmo assim a felicidade dos outros nos continua a incomodar sugiro meditação, um passeio no campo, bater com a cabeça na parede e olhar ao espelho logo de seguida e constatar que aquela mancha vermelha é a metáfora do que temos a mais em nós.

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