(E) quando uma Mulher sonha nem sempre o mundo pula e avança

excorgitações

Sofia

Gosto de trilogias e trindades. E outras coisas semelhantes que agora finjo que não me recordo. Pelo que, depois de duas crónicas sobre o nosso amigo corona, segue-se uma terceira, porque, como diz a sapiência popular, não devia haver duas sem uma terceira.

Mas hoje faço um  ato público de contrição, uma espécie de confissão e expiação da minha ingenuidade.

Quando no longínquo março a coisa começou e entrou no meu léxico o conceito de confinamento, enchi-me de boas intenções e projetos de crescimento pessoal. Inscrevi-me num curso de línguas e outro de artes, aprimorei os meus dotes culinários, encomendei uma série de clássicos cuja leitura andava a adiar e fiz um rigoroso programa de exercício físico que me iriam dotar das mais belas nádegas que o Alentejo já viu.

Hoje, 100 dias depois, sorrio envergonhada a minha ingenuidade. Evidentemente que abandonei os cursos, fiz pão uma vez e agora estou viciada em take away (embora o rapazito que faz as entregas justifique as calorias), e vi toda a porcaria que existe na netflix (embora, devo sublinhar que a minha estante de livros parece aquelas dos senhores inteligentes que dizem trampa na televisão). Apenas não posso negar que nestes meses tenha tido um crescimento pessoal: são vários centímetros na zona da barriga e toda uma nova coleção de calças, para substituir aqueloutras que miraculosamente encolheram fechadas no roupeiro.

Há um outro aspecto que devo mencionar: tornei-me muito mais ecológica por estes meses. Comecei a fazer reciclagem de garrafas, que espalho pelos vidrões da cidade, depois de a zebra da minha vizinha da frente me ter perguntado se tinha algum restaurante, quando me ouviu a depositar no dito cujo mais de 40 garrafas. Igualmente positivo foi o facto de o meu supermercado só me mandar cupões de desconto de bebidas alcoólicas e esta semana me estar a oferecer um desconto de 25% em cartão numa clínica de desintoxicação. Que vou guardar para usar brevemente quando formos condenados a uma segunda vaga de prisão domiciliária.

Porque sim: também eu estou a desconfinar. Aliás, nunca tive tantos jantares de desconfinamento, tanta saudade para comemorar com vinho branco. Com o distanciamento social: não necessariamente por razões filosóficas ou cívicas mas, sobretudo, porque ando há semanas a tentar uns ajuntamentos mas a coisa não tem sido fácil. Mas a esperança é a última coisa a beber…

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