Cante no Feminino

à primeira segunda do mês

Odete Borralho

O projecto Cante no Feminino foi desenvolvido, em 2016 e 2017, pelo Movimento Democrático de Mulheres, em parceria com a Casa do Cante de Serpa, e surgiu da necessidade de expormos a problemática da discriminação e da desvalorização do Cante Alentejano cantado pelas mulheres.

Marca da identidade alentejana, os grupos de Cante surgem ainda no primeiro quartel do século passado, o fascismo instrumentalizou as práticas culturais comunitárias como bandeira de identidade nacional, e com esse facto, surgem grupos corais exclusivamente masculinos que se apresentavam de maneira formal e que criaram a imagética mais representativa do cante alentejano: o grupo coral. Esse facto discriminou as mulheres, criando-lhes socialmente a impossibilidade de se organizarem em grupos corais e ditou o falso dito de que o verdadeiro cante é cantado pelos homens.

A revolução de Abril e a Liberdade construíram a possibilidade de as mulheres também se organizarem em grupos corais, e embora tenhamos actualmente cerca de 60 grupos corais femininos, a verdade é que o cânone de que o Cante é dos homens deixou marcas vincadas de preconceitos e dificuldades para as mulheres que hoje executam o Cante Alentejano.

O momento do reconhecimento da UNESCO, há seis anos, deixou a descoberto a discriminação do papel social e colectivo das mulheres no Cante… como se a voz da mulher não tivesse em si a poesia, a força e a beleza suficientes para cantar as dimensões da vida e da sociedade.

O MDM quis com o Cante no Feminino provar que o Cante Alentejano é património dos homens e das mulheres, não é fechado sobre si, é uma manifestação colectiva, onde todas e todos têm lugar. Quis provar e provou que o Cante é um lugar colectivo de igualdade, de companheirismo, de partilha, de generosidade e de paz e que a salvaguarda deste património passa pela valorização das mulheres cantadeiras e dos seus ranchos.

Traçámos desde o início os seguintes objectivos:

1 – A promoção de pequenos encontros de grupos corais femininos como forma de valorizar o Cante das mulheres.

2 – A recolha dos relatos das experiências e histórias vividas pelas mulheres bem como receber as expectativas da Comunidade sobre os corais femininos.

3 – A produção de reflexões e estudos em torno do Cante como Património Imaterial da Humanidade, introduzindo a questão de género, concretizado na realização de Jornadas onde se pudesse ampliar a discussão e ouvir o Cante das mulheres

4 – A valorização sistemática e continuada da participação das mulheres na promoção e salvaguarda do Cante Alentejano.

5 – A publicação da revista “O Cante no Feminino”, como materialização do projecto até àquela fase e que poderá ter continuidade com outras actividades

O MDM, na sua luta pela emancipação e desconstrução da discriminação e desigualdade em todas as esferas da vida, pretende dar espaço e voz às mulheres na defesa do seu lugar na participação da cultura identitária, e do património da sua região. Um património de que elas são parte e que simboliza:

– Aquilo que fomos…

– Aquilo que somos…

– Aquilo que iremos ser:

Mulheres que lutamos pela igualdade na vida!

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