Homenagem ao tio Luís Mau Modo

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à primeira segunda do mês

Maria Manuela Oliveira

Portel, anos 80

O tio Luís Mau Modo merecia só para si um romance. Soubera eu escrevê-lo… Tinha uma taberna aberta no Largo do Fonseca, à qual só tinham acesso os amigos. Os estranhos, mesmo que fossem da vila, não eram benvindos. A taberna definia-se pela pouca conversa, pelos belíssimos petiscos feitos pelo tio Luís e pela tia Maria Leonarda, pela cadela Liba e pela pêga Rosa. De resto, era quase uma garagem, com apenas uma mesa (o serviço era ao balcão), uns calendários nas paredes e alguma porcaria da pêga que percebia tudo, menos que não podia defecar alegremente onde lhe apetecia. A gente entrava, saudava quem estava e remetia-se à participação nalguma conversa (se a havia) ou ao silêncio. Aí, quando e só quando o tio Luís entendia, lavava os copos e servia o vinho.

– Tio Luís apetecia-me vinho branco.

– Hoje é tinto.

 

Quanto ao petisco, era melhor não pedir. Corria-se o risco de ouvir: “já não há”. Se não se pedisse, lá quando ele entendia, ia à cozinha buscá-lo. Podia ser um prato de canja (com o nº de colheres suficientes para todos) ou então umas presas de borrego, uns feijões frades com atum ou uma salada de tomate, sempre coisas muito bem feitas.

No fim da tarde, pedia-se a conta. Irremediavelmente era um número arrevesado como 13$20 para cada um e não adiantava nada alguém querer pagar a conta toda. Só recebia de cada um a importância que ele próprio estipulava.

O tio Luís antes queria estar sozinho do que aturar clientes desconhecidos ou indesejáveis. Um dia estava sentado à porta da taberna a apanhar o sol da manhã e entrou um forasteiro na taberna, cometendo, além do mais, o pecado mortal de não dizer os bons-dias. O presumível cliente esperou dentro da taberna que aparecesse alguém, chamou, bateu palmas e nada. Até que voltou a sair e perguntou ao tio Luís: “então, não há ninguém para atender?”. Resposta pronta: “Se quer que lhe diga, ainda cá não os vi hoje”.

 

O tio Luís tinha uma bicicleta velha que costumava passear pela vila. Só se montava no veículo quando via alguém ao longe a quem não queria falar. A GNR deu em pedir-lhe a licença e o livrete e ele disse logo que não tinha. Iniciou-se então um processo de intimações, com prazos para tratar dos papéis, as quais não mereceram qualquer resposta por parte do tio Luís. Os guardas, ofendidos, disseram então que se não tratasse dos papéis no novo prazo, lhe apreendiam a bicicleta. E assim foi. A bicicleta foi para o posto da GNR, até que o tio Luís tratasse dos documentos. Lá esteve uns anos, até que os guardas (sobretudo os que faziam a limpeza) se fartaram do móvel e mandaram recado ao tio Luís para a ir buscar. “Quem ma levou que ma venha trazer”. Lá esteve mais uns meses, que aquilo era provocação a mais, mas acabaram por lha levar a casa.

 

Um dia um caixeiro viajante parou em Portel e perguntou se havia algum sítio para almoçar. Indicaram-lhe que talvez o tio Luís Mau Modo, se ele estivesse para aí virado. O homem desceu para o local indicado e, entretanto, esqueceu-se do nome e perguntou ao próprio tio Luís “pode dizer-me, por favor, onde é a taberna do tio Luís Mau Focinho?”. Reposta: “Não é isso que para aí me chamam”. E num gesto de não ressentimento, serviu-lhe o almoço.

Se não gostava de alguma pessoa, não havia nada a fazer. Nós por vezes referíamos alguém no meio de uma conversa como não sendo má pessoa. O tio Luís só dizia: “não presta” e arrumava a questão.

 

Uma entrevista que eu tinha dado ao Diário do Alentejo esteve anos a fio pendurada na taberna, no meio dos calendários e das prateleiras com garrafões. Por fim, já não se lia nada, de tal forma as moscas lá andaram por cima.

Pelo 25 de Abril, quando as ruas se enfeitavam de colchas, folhas de palmeira e outros adornos, o tio Luís pendurava na varanda da taberna três cartazes como se segue: o Papa, o Che Guevara e o Ramalho Eanes. Depois chamava a atenção para os cartazes, sem explicar a lógica daquele trio. Penso que gozava que nem o perdido só a imaginar as possíveis interpretações dos transeuntes.

O João era o seu amigo dilecto. Já muito doente, ainda escrevia ao tio Luís que ficava deliciado e nos mostrava o subscrito dirigido ao “tio Luís Bom Modo”. (o mesmo João escrevia-me “querida Manela, Presidente da gente e ainda bem”).

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