Boas festas & esses disparates todos

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excorgitações

Sofia

Sofia||Expoente M Rádio

Sempre me irritou solenemente (e quando conjugo o verbo irritar e lhe dou solenidade é porque a coisa é séria) aqueles babosos que nos vestem com o olhar e vomitam o boas festas no corpinho todo. Possivelmente estes tipos são os mesmos que enviam fotografias não solicitadas dos pirilaus enrugado, cientes do aspeto do seu rosto!

Mas, acho que até disso sinto falta. Das boas festas, não dos pirilaus enrugados!

Sou uma mulher de Afetos. Desses e muito especialmente dos outros e, quiçá o pior da pandemia tenha sido, para citar Hannah Arendt e fingir que sou erudita, a banalização da frieza.

Esta coisa de não nos tocarmos, de negar afetos, de nos cruzarmos com os amigos de outras décadas e não os podermos beijar, esta treta de ser socialmente responsável e deixar os velhos trancados durante o natal, mexe com a minha sensibilidade, de mulher parcamente sensível. Claro que sinto falta dos copos com amigos, das festas e das feirinhas, de gozar com as roupas ridículas das outras, amiúde iguais às minhas, de viajar sem destino e de tudo aquilo que todos nos queixamos: mas, mais do que tudo, é dos Afetos que mais sinto falta.

Nunca fui daquelas que escreveu nas janelas que vai ficar tudo bem porque, desde meados de abril, temo pela hecatombe: vão ser anos desgraçados em que a única coisa que vai crescer é a miséria humana! E desculpem estar niilista, mas deprime-me colocar o bacalhau de molho para uma ceia solitária e, apesar de experiência da pfizer em acordar as desgraças humanas, não acredito que os efeitos da vacina sejam para breve e, mesmo que fossem, a crise socioeconómica já se exibe nas filas para matar a fome e veio para ficar. Mas, se me enganar (e gosto tanto quando me engano) dou a minha palavra de não escuteira que vou andar a beijar, com decência, este mundo e o outro. Que vou despir-me das máscaras, de todas as máscaras, e sorrir despudoradamente, até exibir aquele canino que a cadela da dentista me roubou e ainda me obrigou a pagar pela consulta.

Porque apesar da vacina ser da pfizer não me parece que esta possa contrariar esta impotência de estarmos condenados à frieza e à distância, que nos consome a todos e nos está a desumanizar.

E porque não me conformo e porque os meus fantasmas já me consomem o suficiente para permitir que seja assombrada pelo vírus da indiferença, tomei uma decisão que agora partilho com o mundo: vou protestar, vou refilar, vou indignar-me com toda a minha pujança e depois de isto terminar, não vou fazer absolutamente nada porque sou uma legítima portuguesa, pelo que, digo estas coisas profundas e depois vou fazer o jantar e esqueço-me.

Uns abreijos para todos, com a devida distância e líquidos de álcool-gel e não percam a esperança: se 2020 foi este caos, o 21 vai ser ainda pior…

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