A Índia é a Índia

A India é a India

A Louca da Casa

Carmo Miranda Machado

Dia 1 – Na minha primeira viagem à Índia, deixei Lisboa de madrugada em direção a Zurique, de onde voaria para Bombaim. Duração prevista da viagem: 9 horas. Aterrei na Índia já a noite caía. Quando sai do aeroporto em direção à estação de comboios, senti o terrível choque da diferença. O percurso mostrou-me milhares de pessoas a viver na rua, em camas e casas improvisadas encostadas a muros, adormecidas na humidade quente de Mumbai. O meu destino era Pushkar, onde decorria a maior feira de camelos do Oriente. O primeiro comboio para Norte sairia pelas cinco horas da manhã. Esperei. Sentada na escadaria da estação, observei a dura realidade ao meu redor. Já cansada, encostei a cabeça na mochila e adormeci. Sem medo… Senti-me entrada num outro mundo mas que não me era desconhecido. Antes de entrar no comboio, dei os meus ténis Nike a um miúdo que os recebeu e calçou de imediato. Mas ele não sabia andar calçado…

Dias 2 e 3 – Chegar à feira de camelos foi a minha primeira grande aventura na Índia. Depois do comboio, dois autocarros conduzidos vertiginosamente por dois condutores loucos e o último percurso, de Ajmer a Pushkar, feito de riquexó por 50 rupias – rodeada por macacos que tentaram, por várias vezes, roubar tudo aquilo que eu segurava – antecipava já a grande aventura que se seguiria. A paisagem surpreende, com as cordilheiras a separar aquela parte da Índia do deserto de Thar, evitando a passagem das monções. Entrar em Pushkar foi como entrar num conto das mil e uma noites. Não é fácil descrever o que vi, ouvi, cheirei e senti. A mistura de cheiros e cores e rostos e animais mostrou-me que já não estava em terra firme. Era outro mundo, outra latitude de lugar.

Dia 4 – Explorei Pushkar, um importante centro de peregrinação. Espera-se de um hindu que venha banhar-se nas águas sagrados do lago pelo menos uma vez na vida, como forma de redenção para os seus pecados. Para muitos, este pode ser o último local de peregrinação depois de percorridos os locais sagrados da Índia. Deve chegar-se a Pushkar numa lua do mês lunar hindu – kartika – que corresponde aos finais de outubro e inícios de novembro. A mundialmente famosa feira de camelos – Oont mela – a maior do mundo, ocorre entre 31 de outubro e 8 de janeiro e junta 200.000 pessoas de todos os lugares. É a meca dos verdadeiros viajantes e dos seguidores de Shiva. Visitar esta feira é uma experiência inolvidável.

Dias 5 e 6 – O meu quinto dia da Índia foi destinado a percorrer a feira e as ruas de Pushkar, deliciando-me com a deliciosa comida indiana e a decidir o próximo destino: Udaipur. De novo, a grande odisseia dos transportes públicos indianos. Meti-me a caminho e cheguei à cidade dois dias depois.

Dia 7 – Acordei em Udaipur, a cidade do nascer do Sol, num pequeno hotel com vista para o lago. Tomei o pequeno-almoço de chapati (nan ou tandoori) com lassi e deambulei pelas ruelas, misturada com vacas, cães, camelos, motoretas e pessoas. O filme Octopussy de 007 foi filmado aqui e percebe-se porquê. Udaipur lembra épocas passadas, encontros e desencontros, aventuras e mistérios. Visitei o palácio da cidade e fiz o que mais gosto de fazer. Misturar-me com os locais, conversar com eles, parar aqui e ali, sem pressas. Jurei a mim própria regressar um dia, apaixonada. A cidade e o seu lago de águas calmas, as montanhas, os palácios, as ruelas, as lojinhas, a simpatia natural dos habitantes, tudo aqui se conjuga para namorar. Almocei por poucas rupias a meio da tarde, descalça e sentada em almofadas, no terraço do Jagat Niwas Palace Hotel onde, alguns anos depois, acabei por ficar.

Dia 8 – De barco, no lago, visitei a Ilha dos Elefantes e, de tarde, experienciei talvez a viagem de motoreta mais louca da minha vida, desviando-me de vacas sagradas até chegar à fábrica de pedrarias onde, rodeada de jade, lápis-lazuli, turquesas, onix, zircões, olhos de tigre e de gato, vi os artesãos encrustarem as suas pedras em verdadeiras obras de arte de trabalho manual.

Dia 9 – Deixei Udaipur em direção a Jaipur numa viagem de autocarro em que o condutor fez uma gincana em ruas e estradas apinhadas, como se conduzisse numa pista de carrinhos de choque. Aguentei, rezando a Shiva… Jaipur pertence ao chamado triângulo dourado, juntamente com Nova Deli e Agra. É geralmente visitado por bandos de turistas em autopullman com ar condicionado que pernoitam em hotéis de cinco estrelas. Cheguei à cidade de madrugada, cansada e suja e merecedora de um hotel de jeito. Finalmente… O Hotel Digi Palace encantou-me desde o primeiro momento. Havia música de fundo, dezenas de velas acesas e, no jardim, lareiras acesas onde, ao seu redor, as pessoas conversavam baixinho.

Dia 10 – O símbolo de Jaipur é o Palácio dos Ventos, construído em 1799. Este palácio cor-de-rosa – ex-libris da cidade – possui vários túneis subterrâneos que ligam o palácio ao harém… Outros monumentos imponentes adornam a capital do Rajastão, entre eles o Forte de Âmbar, o Palácio dos Ventos, o Palácio do Lago. Jaipur é o paraíso das compras e dos amantes de jóias. E nesse tempo, eu colecionava anéis… Felizmente, na última viagem que fiz à Índia, em Agosto de 2017, não comprei nada. Algo, posso afirmar, quase impossível!

Dia 11 – Para encurtar as distâncias neste país gigantesco, voei de Jaipur para Agra. Queria visitar o Taj Mahal. Porém, perdi o avião e tive de fazer a viagem por vias alternativas. Só mais uma aventura… Na ânsia de chegar ao Sul, ainda pensei saltar este destino, convencida que que seria apenas mais um daqueles locais turísticos repletos de multidões. Que engano! É um local turístico, sim, mas imperdível! Repeti o Taj Mahal vários anos depois e receio revisitá-lo sempre que regressar à Índia.

Dia 12 – O Taj Mahal, nas margens do rio Yamuna, levou cerca de vinte anos a construir (entre 1631 e 1648) com a mão-de-obra de 20.000 homens. Este mausoléu simboliza o AMOR, num hino feito de mármore branco e pedras preciosas, jade, ametista, turquesa, lápis-lazuli, cristal e ouro, oferta do imperador Shah Jahan à sua esposa morta. O final da tarde foi passado numa esplanada com vista para o Taj Mahal. Agra não desilude. A cidade que imortaliza o amor é uma amálgama de todas as contradições que a Índia apresenta.

Dia 13 – Na manhã seguinte, às cinco da manhã estava pronta a ver o sol nascer sobre o Taj Mahal. E esta imponente imagem perdurou para além de deixar Agra e a Índia. Ao ponto de me perseguir por vários anos e eu ter lá voltado só para a repetir.


Dias 14 e 15-
De Agra, voei para Nova Deli, onde fiquei um dia e uma noite. A ideia era voar para Varanasi e encurtar as distâncias pois não queria deixar a Índia sem conhecer o Sul. Foi um pouco mais do que o previsto e não me arrependi. Nestes primeiros doze dias na Índia, tinha-me convertido ao vegetarianismo sem qualquer esforço. Quando adormeci no Hotel Java, percebi que estava numa cidade de contrastes, onde a velha e a nova Deli acabam sempre por se encontrar. Sem dúvida, uma das cidades mais caóticas do mundo.

Dia 16 – Cheguei a Varanasi, cidade de todos os extremos. Neste local sagrado da Índia, todas as preocupações do ocidente pareceram-me mesquinhas. Mas Benares merece todos os esforços. Fiquei alojada na Shanti Guest House, situada perto do ghat principal de cremação, Manikarnika. Queria contactar de perto com a morte a assistir aos seus rituais, talvez para compreender melhor o valor da vida… A poluição no Rio Ganges, para onde são atirados os restos mortais dos muitos hindus que ali vão morrer, é assustadora e atinge dimensões incalculáveis para um ocidental. Mas é ali que todas as manhãs os hindus se vão banhar, atirar flores e rezar. Acordei no dia seguinte de madrugada, para ver o sol nascer no Ganges, a bordo de um pequeno barco. Há momentos que nos marcam para sempre e ver de perto os corpos a arder no principal ghat de cremação nas margens do Ganges é um deles. O corpo é trazido coberto de panos e de flores laranja, transportado aos ombros – por quatro homens – numa espécie de maca de madeira. Porém, vi corpos chegarem atados com cordas nos tejadilhos de carros… O corpo é banhado no rio para a sua última purificação e a seguir o filho maios velho rapa o cabelo e vai atear o lume com a chama sagrado que arde ininterruptamente há muitos séculos, diz-se… De seguida, dá cinco voltas em redor do morto, num ritual que simboliza os cinco elementos – água, terra, fogo, ar e vácuo, segundo as culturas antigas da Pérsia, Grécia, Babilónia, Japão, Tibete e Índia. Chorei, chorei muito, pelos mortos, pelos vivos, pelo planeta, por mim própria…

Dia 17 – De riquexó, deixei Benares em direção a Sarnath, o local onde Buda fez o seu primeiro discurso. Pelo caminho, fui deixando os meus haveres a quem deles precisava, sapatos, jeans, t-shirts. Casaco, canetas… e percebendo de que precisava de tão pouco para viver. Andava com a mesma roupa há quatro dias e sentia-me bem. Não punha um baton desde que deixara Lisboa e a única mordomia que mantinha era a hidratação do rosto quando me lembrava… Em Sarnath, local eu Dalai Lama visita anualmente, está situada a principal Academia de Estudos Budistas. O templo transmite uma calma e uma paz de espírito que nunca antes eu sentira. Regressei a Varanasi ao final do dia. A cidade sagrada de Benares está para os hindus como meca para os muçulmanos. Pelo menos uma vez na vida, um hindu vem banhar-se no rio Ganges. Os templos, as flores, os odores dos incensos a queimar, os mantras, as ruas repleta de animais e de gentes, o som dos muitos sinos e o sabor intenso do malai kofta morrerão comigo.

Dia 18 – Voei de Varanasi para Bombaim, de onde apanharia um voo doméstico para Goa. Segunda paragem na cidade onde todas as religiões, grupos étnicos e castas da Índia se reúnem. Habitada desde a Idade do Ouro e totalmente aberta ao mar, a zona antiga é o sítio ideal para se ficar. Era hora de algum aconchego e o hotel tinha de permitir um bom banho quente e alguma vista. Era domingo e as ruas da cidade estavam apinhadas, com multidões em visita ao Gate of India. Bombaim é gigantesca e nela cabem várias cidades. Bairros ricos alternam com os maiores e mais pobres bairros de lata da Ásia, com ruas que servem de lar a milhares de pessoas.

Dia 19 – Bombaim. Visitei Dharavi, o maior bairro de lata da Ásia, onde vive mais de um milhão de pessoas. E depois, depois… o Mahalaxmi Dhobi Ghat. O bairro dos lavadores é um mundo duro e estranho. Pilhas e pilhas de roupas são lavadas, esfregadas batidas, empilhadas, secas e engomadas por pesados ferros a carvão… Aqui, pelo menos 500 mil roupas são lavadas todos os dias, em 826 pequenos tanques. É a maior lavandaria a céu aberto do mundo onde homens sem camisa, usando sarongue, trabalham arduamente por 14 extenuantes horas…

Dia 20 – Era altura de seguir para Sul, onde o bulício da Índia acalma. Deixei Bombaim a sonhar com as praias de Goa onde pretendia recuperar uns dias, estendida ao Sol no nosso inverno. Destino: Panjim. Temperatura: 30 graus à noite. Era Inverno em Portugal.

Dias 21 e 22 – Goa, Margão e Diu. O reencontro com a velha Goa, a familiaridade dos nomes e a simpatia de um povo. Mas eu queria mar, mar… Adormeci numa palhota junto à praia, em Palolem. Há muito que sonhara com um sítio assim. Yoga. Massagem. Livros. Mar. A gigantesca bola alaranjada avermelhando-se de desaparecendo em seguida à sua própria velocidade… Arrastei-me para o aeroporto. Era ali que eu queria ficar.

Dia 23 – Cheguei a Bombaim de madrugada. No voo com destino a Zurique, sonhei com os jardins suspensos nas encostas de Malabar, com os mortos de Varanasi e as praias de Palolem. O que é a Índia? Não sei. A Índia é a Índia. Trouxe, porém, duas certezas. A primeira, a de que não voltaria, enquanto vivesse, a fazer um único juízo de valor fosse sobre quem ou o que fosse; a segunda, a de que aceitaria ainda mais a diferença de cada um na sua individualidade, acreditando que a missão de cada um de nós terá de ser cumprida, dê lá por onde der e custe lá o que custar, nesta ou noutra(s) vida(s)…

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