“Olha!, se eu soubesse tinha trazido uma sande”

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carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Ana Ademar||Expoente M Rádio

Disse ela. Tem sessenta e alguns anos e tenho de olhar duas ou três vezes para trás para confirmar que não a conheço. Não é tarefa fácil quando se veem apenas os olhos às pessoas… da terceira vez, meti os óculos de sol e apontei a cara lá para o fundo, não fosse a senhora pensar e bem, que olhava para ela.

Tem razão, pensei eu: hora de almoço e a espera adivinha-se longa.

Não éramos muitos, talvez uns consistentes 40 com muito mais distância entre si que a recomendada, o que naturalmente faz uma fila parecer muito maior do que é…

“Estava eu a caminho de um hipermercado num domingo de manhã, obviamente SÓ para fazer umas compras essenciais e que não podiam ser adiadas para outro dia ou outra hora, quando, ao passar de carro a cerca de 500 metros do local de voto, consegui perceber que estava muita gente. Tenham vergonha na cara seus… seus… democratas!“ post numa qualquer rede social, assinado pelo cidadão que só compra bens essenciais ao domingo de manhã e, ainda que seja a favor do voto, vai com certeza evitar fazê-lo uma vez que as pessoas se acumulam, ao contrário do que acontece em hipermercados ao domingo de manhã.

Lembro-me que quando era pequena os dias de eleições eram especiais. Era dia de banho caprichado e muda de roupa mais recente no armário. Se fossem as presidenciais seria a roupa estreada no dia 25 de Dezembro, repetida no dia 1 de Janeiro e no caso de haver, no dia das eleições. Almoçávamos cedo e saíamos bonitos e lavados, como se de uma festa se tratasse.

No caminho cruzávamo-nos com quem já vinha de cumprir o dever. No portão da escola, que havia de ser a minha, encontrávamos muita gente, porque era ali que se juntavam todos. Não só porque ainda se podia, mas porque era a única altura em que muitos se cruzavam e era preciso colocar as vidas de cada um em dia.

Íamos para a fila, os meus pais votavam sempre em salas separadas (ou é assim que me lembro) e regressávamos a casa. Era domingo, não havia confinamento, mas estava tudo fechado e era dia de lanche ajantarado – diferença essa que lhe valia o título de melhor refeição da semana. Tal como nos outros dias, víamos o telejornal, desta vez com a excitação acrescida do resultado das eleições.

Hoje não vi gente especialmente bem vestida. Eu esforcei-me, mas isto dos confinamentos não tem facilitado a compra de fatiotas, pelo que farpelas novas não há. Resta a roupinha lavada e com menos borbotos que se encontre. Banhito bem dado e um tom de vermelho nos lábios ainda que ninguém veja, já que a máscara é agora adereço a tempo inteiro, mas pintar os lábios de vermelho ganhou um sabor especial.

Fui a pé para aproveitar o sol, não imaginando que ia estar mais de uma hora debaixo dele. Tirei o casaco, tirei o cachecol, arregacei as mangas e ponderava já o que despir a seguir, quando a fila andou e eu fiquei à sombra.

Chegou a minha vez: votei – não havia urna, o que é uma pena porque eu gosto de ver o papelinho entrar na caixa e ficar lá misturado com os outros todos – deram-me um autocolante e vim-me embora.

Aparentemente nada teve de especial. A não ser que a gente pense, por exemplo, em quantas vidas assenta este privilégio de meter a cruzinha no quadrado. Nada de especial a não ser que a gente pense em quantos corpos espancados e com fome assenta este ato tão simples que é acordar de manhã e decidir a quem gostaríamos de entregar a responsabilidade de nos governar.

E nós, atentos, lemos os jornais e percebemos que as dificuldades estão aí: há gente a morrer, faltam camas nos hospitais, espaço nas morgues, há gente esgotada de tanto trabalhar e nós não podemos ficar em casa porque está um tempo tão bom e vamos lá a ver, estamos todos fartos de confinar e fechar restaurantes e cafés é impensável para quem vive deles, mas ser responsável pela morte de alguém é capaz de ser coisa para nos marcar para a vida. E no meio de tudo isto, os pés de meia já foram ao ar, a conta de EDP ainda não chegou e alguém vai ter de a pagar, as “ajudas” não são para todos e para os que são, não ajudam grande coisa e estamos todos meio estupefactos e incrédulos e revoltados e é caso para estar!

Mas nós – os tais 99% – que estamos zangados com isto tudo, com o estado em que estamos e a que percebemos que vamos chegar, precisamos de ter em conta que é no descontentamento e no desnorte que a extrema direita medra. E essa, a história comprova, não tem soluções para nós, para os 99%.

O acto de votar não é, em si, nada de especial. A não ser que a gente assuma que a grande parte dos 99% está desnorteada e descontente e estupefacta e incrédula e revoltada, e que nestas condições é difícil raciocinar e isso cria as condições ideais para fazer asneira. Por isso, a minha proposta é a de que, no próximo domingo encaremos o boletim de voto cientes do que foi preciso para aqui chegar, da importância que tem e de que é fundamental estar muito consciente de onde se mete a cruzinha com a esferográfica que agora temos de levar de casa.

Se facilitar, podemos sempre tomar um bom banho, vestir a melhor roupa do armário, usar a máscara mais bonita, munirmo-nos da esferográfica e gel desifectante e fazer do voto um ritual sério, mas festivo. Se houver fila e a coisa demorar um pedaço, o melhor é ser precavido e levar uma sande.

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