Olá Rosa

Foto

A Rosa

Madalena Palma

Olá Rosa,

Hoje vou contar-te uma história.

Uma história recente que começa em tempo passados.

Eram tão pequeninos. Sentia as mãos deles afundadas na palma da minha mão. Um de cada lado, a caminho do infantário. Ainda andavam à pinguim. Tão pequeninos e cheios de energia. Estava a entregá-los às educadoras ao mesmo tempo que me tocava o telefone. Via-os a correr e a despedirem-se de mim tão sorridentes. Atendi, finalmente, o telefone. Atendi e alguém chamava o meu nome. Eu queria responder, mas não conseguia. Só ouvia chamar enquanto me mantinha muda e sem conseguir responder. Dei por mim num lugar desconhecido. Só via pés, plástico, pessoas a chamar-me. Frio. Dor difusa. Continuamente a chamarem o meu nome. Tinha desmaiado e estava ainda no chão. Tinha tido uma convulsão, mas a minha mente remeteu-me para quase duas décadas atrás num dos momentos mais felizes da minha vida, inundada da felicidade dos meus filhos. Depressa fui confrontada com a realidade. Estava no hospital depois de ter dado entrada com inúmeros sintomas e depois do enfermeiro me ter dito a bonita frase “você está positiva”. Senti tanta angústia. Na minha cabeça só pensava que havia pessoas a morrer todos os dias desta doença. Pensava que os meus pulmões já passaram por infeções respiratórias e pneumonias. Pensava nos meus filhos. Na dor que causaria aos meus se morresse. Sim, pensei tudo isto Rosa, à medida que os sintomas iam aumentando. À minha volta via pessoas a chorar, outros a vomitar. A ansiedade nos olhos de todos o que ali estão fechados naquele espaço, sejam doentes ou pessoal médico ou auxiliares. Ansiedade e angústia. Só queria ir para casa. A médica foi incansável. “Vamos fazer todos os exames possíveis para avaliar a extensão”. E fiz tudo e as horas passavam e meteram cateter e tiraram sangue, e fizeram raio x, e oximetria, mais um copo de água para acalmar não sei o quê. E as horas a passar e as pessoas a chegar e a angústia a subir e vomitar mais um pouco e o olhar da médica com a preocupação de não desmaiar novamente porque “a convulsão não foi bonita”. E eu só queria ir para casa e fugir dali. Não queria dar trabalho. Não queria morrer ali. Não queria ouvir aqueles ruídos. Não queria estar ali. Vieram os resultados. “Vai para casa porque mora perto e está lúcida”, mas com a certeza de que iria piorar muito antes de melhorar. E piorei e não foi bonito. Não sei como é com as outras pessoas, mas eu senti o vírus vivo no corpo. Senti-o agarrado a cada canto de mim a apoderar-se das minhas forças e da minha alma. Desesperei. Chorei muito. Mas passou. E, duas semanas e meia depois estou a escrever sobre isso e tive alguns momentos em que pensei que jamais seria capaz de seja o que for.

Passou. O que sinto é apenas o peito mais pesado e ligeiro cansaço. Mas também isso irá passar, espero. E escrevo-te Rosa, porque quero que saibas que isto é feio, mau, complicado e evitável. Evita sim?

2 opiniões sobre “Olá Rosa

  1. Aiiii Madalena… Que angústia, que medo, que desespero.
    Que testemunho🙏 Agora chorei… Por medo, por angustia, por respeito e por sei lá mais o quê… Chorei porque faço tudo “certinho” e tenho um medo horrível que não seja suficiente. um beijinho minha querida e rápida recuperação

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s