UMA VIAGEM AO VIETNAME

A Louca da Casa

Carmo Miranda Machado

Durante mais de um longo e melindroso mês de errância interior pelo Vietname,  fumei tudo o que tinha. O ópio no início foi uma fera mansa. Um tesouro secreto. Um segredo guardado sem consciência do tempo. Só depois se converteu num silêncio implacável, num terreno seco que me lambia as entranhas. Fumar ópio e sonhá-lo nos lençóis inquietos eram os dois atos sagrados da minha vida que me levavam de volta aos braços da minha mãe. Eu não queria voltar a Lisboa. Ou ao Alentejo. Já não pertencia ali. Restava-me o meu nome de batismo e nada mais. Lisboa já se dissolvera na distância. Os mortos tinha sido enterrados e eu procurava alguma paz.

Passei a conhecer todos os segredos do ópio. E de mim própria. Inicialmente fumei-o com uma súbita ansiedade, como se fosse a minha única e última oportunidade de salvação. O ópio devolveu-me um cérebro entumecido. Felicidade é não ter memória para recordar rostos insignificantes. Não fumei ópio para me matar. Atirei-me para ele como quem se atira para uma rede de pesca. Escolhi-o para aliviar o nevoeiro que carregava no corpo e na alma desde criança. Mas o ópio não me roubou os sonhos.

Fumar ópio tinha a força dos atos consumados. Eu deixara para trás os pais mortos e os amores desaparecidos. Estava no Vietname como num sonho e vivia entre os escombros da minha memória. Restava-me este último exercício: o de sonhar. Estava cativa entre a realidade de Lisboa, a infância no Alentejo e o vento sempre morno que soprava nos meus sonhos do Oriente. Mas vagarosamente, o ópio foi-me trazendo a calma, a paz absoluta dos heróis sem espada, o contraponto dos remoinhos da memória. Tive em Saigão a minha paz.

À minha volta deixou de haver destroços. Se de início, o ópio esfumava apenas por instantes as dores que levava comigo, transportando-me para uma caverna no fundo do mar, agora fazia-me boiar à superfície do mar sagrado. O ópio resgatou-me à maldição das más memórias que agora se esfumavam lentamente, em contacto com o bulício de um país sempre em movimento. Restavam-me apenas vagas imagens enroscadas umas nas outras, cercadas por uma impenetrável barreira de paz, de fumo e de silêncio.

À medida que avançava na viagem, sentia-me menos vulnerável, instalando-se uma luz intensa, dentro e fora de mim. Deixara para trás a gruta lamacenta e seguia em direção ao sol. Ali estava eu, num local desconhecido, no meio das coisas vulgares, onde já não procurava rostos nem memórias. E nunca fui tão feliz. Antes, sempre aquela saudade amarela. Uma saudade que mata. Agora, o meu coração já não tem qualquer necessidade de renovação. Já nada perturba o meu silêncio. Ali encontrei a minha paz.

E numa noite em que a brisa morna da noite já não me atiçava as memórias,  primeiro olhei para o relógio e depois para o céu pintalgado de luzes. Há sempre uma noite em que nos céus brilham mais estrelas. Fui para as ruas que em Saigão nunca estão desertas. Conseguira salvar-me, pensei. Vagueei sem rumo por um labirinto de becos que se tornavam cada vez mais estreitos. O tempo não resolve muita coisa mas ao menos eu já não navegava sempre no mesmo barco andarilho, percorrendo todos os portos do Oriente.

Pelo Vietname, eu só e ele distante, percorri demasiadas léguas escrevendo viagens imaginárias a bordo dos meus sonhos. O alarido do mundo desaparecera. De agora em diante, restavam eu, o ópio, Saigão e a minha paz. Todos felizes. Final da história.

Há viagens de onde não se regressa.

Nota: A autora viajou pelo Vietname durante um período e em Saigão encontrou a sua paz. O ópio é apenas uma referência literária e não real.

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