“Parece-me supérfluo acrescentar que nenhum dos factos é inventado.”*

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carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Ana Ademar||Expoente M Rádio

Sobrevivi ao primeiro confinamento com relativa facilidade, mas este já me está dar fornicoques. A impaciência começa a fervilhar. Ao contrário do outro, em que não senti a mínima necessidade de ser útil, neste começo a pensar que já é muito tempo perdido. Em resumo: dois pães de quilo, um pão de ló, uma panna cotta, um cozido à portuguesa e uma feijoada; sementes de cravo e bolbos de uma outra flor, de que não me lembro o nome, semeados; várias tentativas para ressuscitar um manjericão que não dá sinais de vida e resmas de papéis velhos queimados. Também comecei a meditar e estou a ver se a coisa pega. Nunca foi coisa com que me identificasse porque requer dez minutos de paragem, de silêncio e mais importante e difícil, dez minutos de calma cerebral. Já lá vão 16 dias (como nos grupos de Alcoólicos Anónimos que vejo nos filmes: um dia de cada vez) e até agora o resultado é positivo: dez minutos diários de “meditação” guiada por uma aplicação no telefone. As aspas aplicam-se porque não penso que o que tenho feito reúna condições para que se qualifique como meditação e não quero faltar ao respeito a ninguém. A verdade é que, muitas vezes, chego ao fim do exercício e percebo que ouvi muito pouco porque me distraí. Mas persisto, mal não fará.

Na verdade, a decisão de experimentar a meditação é uma tentativa de contornar a dificuldade que sinto em concentrar-me na mesma coisa por algum tempo. Penso que seja esta a razão de me ter afastado dos livros. Acontecia com frequência chegar ao fim de um capítulo e perceber que depois da segunda página, não tinha retido nada: a “leitura” era afinal um passeio dos olhos pelas linhas, enquanto o cérebro divagava sobre outro assunto qualquer.

Apesar de já o ter levado a passear comigo em férias, ainda não tinha pegado no “Se Isto É Um Homem” de Primo Levi, porque não é um tema de fácil digestão e sentia que lê-lo sem a atenção e o compromisso adequados seria uma falta de respeito da minha parte. Comecei agora, em pleno confinamento e depois de um resultado assustador nas eleições presidenciais. E dirão que estou a exagerar: pensar no holocausto por causa do resultado das eleições? Talvez, mas a mim parece-me que isto anda ligado.

O livro relata na primeira pessoa a vida quotidiana de um judeu em Auschwitz. As descrições não são particularmente emotivas, aliás, se o fossem, o livro seria insuportável de ler, dado o terror dos factos. Certo é que no outro dia aconteceu o seguinte: li umas quantas páginas e depois resolvi ver um filme. Sem pensar muito, escolhi “Do Céu Caiu uma Estrela” (“It’s a Wonderful Life”) um filme de 1946 com realização de Frank Capra. George Bailey um homem que sempre pensou no bem dos outros e nunca no seu, vê-se envolvido numa confusão legal (provocada pelo seu tio e sócio, mas pela qual assume responsabilidade). Clarence, um anjo ainda sem asas, é enviado do céu para o ajudar. No fim, todos os que Bailey ajudou juntam-se para o salvar da prisão e da miséria.

Mais ou menos a meio do filme percebi que a escolha não podia ser fruto do acaso. Tal como não terá sido por acaso que um filme tão feliz e esperançoso, que fala de estrelas no céu que velam por nós, tenha sido feito no período pós guerra, depois de se perceber a extensão da barbárie cometida pelos nazis.
Quando começaram a passar os créditos do filme, percebi que me tinha conseguido libertar de algum do peso deixado pelas horas de leitura. Alguma da ordem que me permite olhar de frente para o mundo tinha sido reposta. Marcarei no meu calendário este sábado solarengo como o dia em que equilibrei o peso do mundo entre o efeito devastador de “Se Isto É um Homem” e a visão ingénua e quase pateta de “Do Céu Caiu uma Estrela”.

*frase retirada do prefácio de “Se Isto É um Homem” de Primo Levi

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