A FALTA QUE O SOL ME FAZ

26fev2021

A Louca da Casa

Carmo Miranda Machado

            O Sol, em qualquer religião, sempre foi considerado o Deus mais importante. Mitra para os persas, Brahma para os hindus, Adonai para os fenícios, Helios e depois Apolo para os gregos, para os astecas Quetzalcoalt. Na maçonaria usa-se a forma Sol-om-on – a expressão da luz. Este, seja qual for a religião que o proclame, será sempre o objeto do meu culto. Com efeito, a minha oração foi e será sempre ao Deus Sol.

            E eu nunca precisei tanto de Sol como este ano. Não sei explicar… É uma necessidade vital, algo que me impede de entristecer. Desde que me lembro de ser gente, recordo sempre com prazer redobrado os dias de sol abrasador na minha aldeia do Alentejo profundo. Não guardo memória dos dias de chuva ou de frio. Arrumei-os todos naquela gaveta lá do fundo, onde guardo tudo o que não quero recordar. Pode ser que um dia a abra e me consiga sentir feliz num final de tarde cinzento e chuvoso da minha pequena casa do Sul.

            Até lá, a estrela central do sistema solar, astronomicamente falando, é o centro da minha vida. A luz solar não é só a principal de energia do planeta Terra. É também a minha principal fonte energética, sem a qual me sinto esmorecer e me torno azeda e aborrecida. Estranha. E sem qualquer luz. Só o Sol me revitaliza e renova. Só o Sol, de preferência forte, é a grande força espiritual da minha vida. A verdade – para minha satisfação – é os dias de Verão a Sul trazem sempre calor a sério, com temperaturas tão elevadas que um dos grandes rituais alentejanos – a sesta – ganha ainda maior importância nos dias de grande calma.

            Gostaria assim de recordar em pleno Inverno, nesta crónica solarenga, a forma como nós, os do Sul, descrevemos o tempo. E se nos dias fresquinhos (vinte graus centígrados) e de tempo escapatório, para nós aí a rondar entre os vinte e os trinta graus, nos sentimos bem na nossa pele, quando ele – o calor – dá em apertar, chegamos facilmente a temperaturas que ultrapassam os quarenta graus, por nós carinhosamente designadas por calor dum cabresto ou mesmo calor dum cabrão. E o mesmo se passa quando os termómetros teimam em descer e penamos os cinco penados com as mesmas designações de frio dum cabresto ou frio dum real cabrão. Ora, sem férias à espreita, com frio em Lisboa, nada melhor do sonhar…

            Pela parte que me toca, o Alentejo para mim só é Alentejo com sol abrasador. Gosto dos dias de Julho, quando o sol não nos dá tréguas, queimando as pedras da calçada que percorro descalça à noite. Gosto de sentir na pela nua o peso do Sol do Agosto, derrubando-me. E gosto, sobretudo, quando ele começa a esconder-se, lá atrás da planície, grande e redondo, devagar como nos convém.

            O Alentejo, ao entardecer do Outono, provoca-me um aperto no coração em forma de susto. E o Inverno profundo, quando a chuva começa a cair forte sobre a planície, provoca-me uma grande e inevitável melancolia. Sem sol, o meu Alentejo morre-me. E mata-me. Quem já viveu os invernos do Alentejo profundo, conhece o vazio que a noite traz quando o silêncio invade as aldeias, as ruas, as casas e se instala dentro de nós.

            Nasce o Sol no Alentejo, reza a letra do nosso cante…

            Sou, sempre fui, mais feliz ao Sol.

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