De baton nos lábios e enxada na mão

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Marias

Leopoldina Pina de Almeida

Leopoldina Pina de Almeida||Expoente M Rádio

Pinto os lábios ao mesmo tempo que preparo a almoço, ao mesmo tempo que atendo o telemóvel, ao mesmo tempo que ponho a roupa na máquina, ao mesmo tempo que penso na lista das compras, ao mesmo tempo que ajudo @s miúd@s com os trabalhos da escola, ao mesmo tempo que organizo uma reunião, ao mesmo tempo que vou para a horta e começo a cavar.

Tal como Durga, a deusa hindu representada com vários braços e que simboliza a natureza cósmica feminina, muitas de nós nos revemos nestes cenários de misturados papeis. Vários braços e vários olhos, que sabem quase sempre onde estão as coisas que toda a gente lá em casa anda à procura. E em simultâneo, a preocupação de estar sempre bem ou que pelo menos seja isso que transpareça no nosso rosto. O metafórico ou real pintar de lábios, que pode ser o sorriso para quem está triste, o telefonema para quem está só ou o colinho para quem se magoou.

Acresce a tudo isto, as atividades profissionais em que as mulheres metem as colheres. Lembro-me sempre de um professor que dizia – “Elas querem estudar? Deixemo-las estudar! Querem trabalhar? Deixemo-las trabalhar! Desde que continuem a assegurar o trabalho cá em casa, está tudo bem!” Não são raras as mulheres que trabalham. Raras são as mulheres que são pagas por todo o trabalho que fazem. “À escala global, 75% do trabalho não remunerado é feito por mulheres, que nele gastam entre três a seis horas por dia, por comparação com a média de trinta minutos a duas horas para os homens” (Perez, Caroline Criado, Mulheres Invisíveis, pág.88). E com tudo isto, elas ainda têm braços para ocupar profissões que consideramos atípicas. À primeira vista, parece ser o caso da agricultura, mas não o é. O início desta atividade humana esteve associada de perto à mulher e ainda nos nossos dias são as mulheres as principais cuidadoras da terra em muitas sociedades tradicionais. E quant@s de nós, não tiveram avós e bisavós com as mãos na terra, nomeadamente numa região agrícola como o Alentejo?

Na sociedade ocidental em que vivemos, talvez não conheçamos muitas mulheres agricultoras. Aliás, hoje em dia, quem mais lucra com o setor agrícola não têm o perfil de cuidador@. Explora a terra como ainda se faz com as mulheres, com os migrantes, com o sul global. Daí que o termo exploração agrícola continue a ser pacificamente aceite. Mas acredito que as coisas estão a mudar! Por isso, neste mês de abril, o EntreMarias vai à boleia da Caravana AgroEcológica juntar-se às inúmeras iniciativas da PrimaverAE, promovida pelo GAIA, evento que iniciou no dia 21 de março e continua até dia 1 de maio. Juntem-se a nós, nesta transformação de paradigma que a tod@s dignifica!

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