Os Olhares das Marias

maio blog

Marias

Leopoldina Pina de Almeida

No mês de abril, o EntreMarias esteve com Mulheres Agricultoras. No seguimento desta linha, em maio vamos conversar com as Cineastas no Alentejo. No cinema, o olhar masculino sobre as mulheres instaurou-se de tal forma, que durante muitas décadas só foi questionado e desafiado por meia dúzia de corajosas, que resistiram às adversidades de um meio inóspito e muitas vezes agressivo ao olhar feminino. Vamos conversar com 4 mulheres cineastas cujos percursos passam de alguma forma pelo Alentejo, esse também outro lado do nosso país, olhado de forma estereotipada, a maior parte das vezes por um olhar de fora que ainda se encontra parado em imagens de cartaz que já nada traduzem a realidade atual.

Eu própria transportava esse olhar quando cá cheguei. O Alentejo do Levantado do Chão, o meu primeiro contacto com o imaginário desta terra, quando ainda não a tinha pisado. O Alentejo das cooperativas, da reforma agrária, do PCP. O Alentejo calmo, onde o tempo corria de modo lento, diferente de todo o país. O Alentejo amarelo, do sol, das searas, dos girassóis. O Alentejo azul do céu. O Alentejo branco da cal. O Alentejo preto das viúvas. O Alentejo fechado e monossilábico. O Alentejo da língua cantada e das expressões que eu nunca tinha ouvido. O Alentejo como último reduto de natureza. O Alentejo tórrido, que obrigava @s minhas/meus amig@s que iam de férias para o Algarve a iniciar a viagem de madrugada, para não passarem por cá nas horas de maior calor. Nós nunca fomos nessa moda. Tu, a tua irmã e a tua avó enjoam muito, dizia o meu pai, passaríamos as férias todas no caminho. Por isso quando cá cheguei, foi para ficar.

Lembro-me de chegar com uma série de imagens feitas. “Mas sabes, isto não é uma reserva de índios. Também cá moram pessoas”. E lembro-me que quando regressava a Coimbra me diziam “Em Beja? Tão longe? Lá é tudo diferente. Não sei se te vais adaptar. É demasiado calmo, não é?” Ou por completa oposição “É mesmo a tua cara. Vais adorar estar lá!”

E como tudo isso se foi desconstruindo, ao longo destes quase 30 anos. Mas não é do meu olhar que este EntreMarias nos vai falar. É dos olhares que nos trazem as cineastas Helena Inverno, Rossana Torres, Sílvia das Fadas e Verónica Castro, sobre o que se encontra no ecrã de cinema e o que se encontra por detrás da câmara de filmar, um mundo ainda por descobrir, de luz e de escuro, do que se julga ver, do que é visível e do que intencionalmente ou inconscientemente se oferece e retira ao público de cinema.

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