Sofia, de gola alta, com vestido comprido, a cogitar sobre cogitações

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excogitações

Sofia

O abominável existe. Da mesma forma que o género humano é capaz de criar os mais belos poemas e as músicas mais extraordinárias, de pintar os quadros mais admiráveis, de praticar atos de ternura e de luxúria absolutamente inesquecíveis, também é capaz de destruir física e psicologicamente um seu semelhante por mero capricho, de desenhar o mais execrável que a torpe imaginação é suscetível de fantasiar.  

Nunca embarquei no maniqueísmo religioso que separa os Bons dos Maus como duas categorias estanques e intocáveis; remexendo nas minhas memórias esquecidas encontro momentos em que me cruzei com o sublime e outras em que barrei com o odioso. Porque o ser humano pode ser cumulativamente angelical e diabólico, porque cada um de nós é uma soma de tantas heterogéneas coisas, de tantas virtudes e tantos defeitos, que qualquer catalogação está condenada ao absurdo. 

Talvez por acreditar convictamente no que deixo escrito, nunca acreditei na bondade e na maldade integral: todos nós temos um lado bom e um lado lunar, todos nós já errámos pelo que, tenho sempre imensa dificuldade em atirar pedras. Sobretudo a cobardia de atirar pedras a quem já está jogado no chão.

Não tenho o privilégio de ser crente em qualquer tipologia de religião mas algures dentro de mim mora algo a que chamo karma e sou defensora acérrima da premissa de que sempre chegamos onde nos esperam porque nem os Homeros que podem enganar todos durante algum tempo jamais vão conseguir enganar todos o tempo todo. E porque as nossas paixões nos furtam o discernimento, gosto de cultivar a sapiência de saber esperar.

Num tempo em que despudoradamente achincalhamos a outra metade do mundo, sem sequer nos darmos ao trabalho de conhecer os factos, sem perceber que se eu não calço os sapatos do outro é leviano comentar a forma como ele anda, cada vez gosto mais de reservar para mim os meus preconceitos e confiar na justiça do tempo, aquela a que nenhum de nós consegue escapar.

Fica dito, para memória futura…

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