O Diabo é o Aborrecimento

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carrossel dos esquisitos

Ana Ademar

Gosto de pensar que sou uma pessoa comedida, sem histerias, sem fundamentalismos. Talvez não consiga sê-lo sempre, mas pelo menos procuro ser razoável. Senão vejamos:

Confina-se? Sim senhor, confino.

É para adaptar? Sim senhor, adapto.

Vacina? Sim senhor, vacina.

Retoma da normalidade? Sim senhor, vamos tentar.

Novo normal? Sim senhor, empenho-me, faço força… mas espera lá!

Isto não é nada normal e eu estou cansada. E de quê se estive confinada, portanto numa espécie de férias? Não sei. É o que sinto. E talvez não seja cansaço e sim aborrecimento.

Peter Brook, falando de teatro, disse que o aborrecimento é o diabo, ora se o teatro é a própria vida, então porra, o diabo pode muito bem ser o aborrecimento. E eu estou aborrecida.

Quando isto for publicado já terá passado o meu aniversário. A minha vida não terá mudado absolutamente nada, mas ainda assim, nas vésperas do dia eu crio e alimento a expectativa de que algo de diferente aí vem.

E talvez precise de me convencer disso mesmo, porque apercebi-me de que às vezes adormeço. Não sei se é uma situação comum, mas espero que sim. Não desejo mal a ninguém, mas deixa-me mais descansada pensar que isto acontece a todos: uma pessoa senta-se numa qualquer poltrona da vida e deixa-se ali estar sossegada, a dormitar… e de repente ou assim parece, qualquer coisa que não sei o que é (talvez um aniversário, porque marca o passar do tempo) a pessoa sente que está coberta numa coisa viscosa que lhe tolhe os movimentos físicos e cerebrais: o aborrecimento. E quer desesperadamente fazer coisas. Saltar daquele torpor. E decide levantar-se, mas até isso é tarefa complicada: o assento tem a forma negativa do rabo, uma cova que abraça aquela parte do corpo criando a sensação de pertença, de aconchego… Recusar o aconchego é difícil, mas é preciso força e determinação.

Adquirida a verticalidade, a pessoa deita o olho ao que ficou para trás e caramba!, o tecido está coçado, o enchimento sai por aqui e por ali e a dor que tem vindo a sentir na nádega está explicada: entre uma das traves da estrutura e o rabo já só existe uma fina camada de tecido gasto.

Será bom esclarecer que este não é um texto de auto-ajuda. Bom, talvez o seja no sentido em que, escrevendo obrigo-me a esclarecer um pouco do que acontece na minha cabeça (que acredito ser muito, pelo menos parece), mas que o aborrecimento enrolou em novelos e nós. Se entre quem lê, houve alguém que se identificou com a situação que descrevo, desengane-se se espera encontrar a solução nas próximas linhas.

De momento estou de pé, a olhar para a poltrona sem saber para que lado dar o primeiro passo: se para trás, afinal a poltrona aconchega-me, se para a frente, quando não faço ideia do que aí vem.

Como já disse, não tenho soluções para oferecer. O que me levou a falar sobre isto é mesmo a possibilidade de me queixar em voz alta. Não sou pessoa para virar a cara à possibilidade de me queixar. E escrevo isto assim a direito e sem rimas porque não sei escrever canções senão era o que fazia, porque já se sabe, quem canta seus males espanta.

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